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Repórter Brasil detalha como Sorriso se tornou uma das cidades mais violentas do Brasil

RECONHECIDO como “a capital nacional do agro” na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, o município de Sorriso (MT) é o mais violento do Centro Oeste e o 13º do país, segundo o mais recente anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com dados relativos a 2024. 

Ao longo do ano passado, quase 60 pessoas foram assassinadas a cada 100 mil habitantes — pelo terceiro ano consecutivo, a taxa ficou muito acima da média nacional (20,8). No quesito violência contra a mulher, Sorriso tem a segunda maior taxa de estupros do país (131,9), atrás apenas de Boa Vista (RR).

Importante pólo produtor de grãos, o município gerou R$ 8,3 bilhões e liderou o setor em 2023, representando sozinho 1% de toda a produção brasileira. Desse total, R$ 5 bilhões vieram só da soja, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A força do agronegócio no estado seria um dos motivos para a falta de políticas de atenção às vítimas dos agrotóxicos, aponta ex-coordenadora do Centro de Referência de Saúde do Trabalhador em Sinop (Foto: Lunaé Parracho/Repórter Brasil)
Violência em Sorriso (MT) também compreende roubos de cargas e insumos agrícolas de alto valor (Foto: Lunaé Parracho/Repórter Brasil)

Para pesquisadores ouvidos pela Repórter Brasil, os cenários de violência extrema e pujança econômica do agro estão conectados: a propaganda, a riqueza produzida e a geografia da cidade despertam interesse de grupos criminosos, como se verifica não só no tráfico de drogas, mas também no roubo de insumos agrícolas de alto valor.

“Onde tem capital, onde tem população emergente, onde tem mercado consumidor, é para lá que eles [os criminosos] vão”, explica Naldson Ramos da Costa, pesquisador associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e fundador do Núcleo de Estudos da Violência da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso).

Violência cresce com disputa de facções criminosas

Desde 2022, Sorriso tem se destacado na taxa de mortes violentas intencionais no anuário produzido pelo Fórum. A publicação soma dados de homicídios dolosos, feminicídios, lesões corporais seguidas de mortes, latrocínios, letalidade policial e policiais mortos.

Naquele ano, a taxa ficou em 70,7 mortes para cada 100 mil habitantes e levou o município ao décimo lugar entre os mais violentos do país. Em 2023, o índice subiu para 77,7 — quarto lugar no ranking.

O período coincide com o acirramento das disputas pelo tráfico de drogas após a fundação da Tropa do Castelar na cidade, uma dissidência da facção CV (Comando Vermelho), até então hegemônica em Mato Grosso.

O racha teria ocorrido por discordâncias de ordens de execução de membros em meio a acusações de “cabritagem”, gíria usada para a venda de drogas sem autorização da facção. O novo grupo também se aliou ao PCC (Primeiro Comando da Capital), que busca ampliar presença no estado.

A Sesp-MT (Secretaria de Segurança Pública do Mato Grosso) alega que, em 2023, 90% dos 81 homicídios envolveram “pessoas ligadas às organizações criminosas e com antecedentes criminais”. Sobre 2024, a pasta disse ter havido redução do número dos homicídios após aumento da repressão ao crime organizado, com reforço do policiamento e programas de videomonitoramento. Leia a nota na íntegra:

orriso vem apresentando queda nos índices de homicídios desde 2024 desde que o Governo de Mato Grosso intensificou as ações de segurança no município. A taxa que era de 77,7 por 100 mil habitantes, em 2023, caiu para 59,7, em 2024.

Além disso, o Governo de Mato Grosso implantou o programa Tolerância Zero contra as facções criminosas, em novembro do ano passado, e os resultados já são nítidos em 2025. De janeiro a junho deste ano, Sorriso apresentou queda de 75,6% no número de homicídios dolosos, na comparação com o mesmo período de 2024. Caiu de 40 para 10 ocorrências.

Estudo do Observatório de Segurança Pública, órgão da Secretaria de Estado de Segurança Pública, apontou que em 2023, 90% dos casos de homicídios ocorridos em Sorriso envolveram pessoas ligadas às organizações criminosas e com antecedentes criminais. Do total de 81 mortes, 73 foram de pessoas relacionadas a crimes.

Ações contra facções no município

A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT) intensificou as ações policiais com foco no combate às facções criminosas com operações integradas das forças policiais. A partir de novembro de 2024, com o lançamento do programa Tolerância Zero às Facções Criminosas, do Governo do Estado, a repressão às organizações criminosas aumentou. O Governo do Estado vem combatendo com ações de prevenção, repressão e inteligência policial com objetivo de identificar, prender e responsabilizar os criminosos, de acordo com as leis brasileiras.

Como parte do Programa Tolerância Zero, o Governo do Estado desenvolve ações voltadas ao sistema prisional, aumentando a segurança nas unidades de reclusão para impedir a entrada de celulares, fugas e práticas criminosos dentro dos presídios.

O Governo do Estado está aliando o uso da tecnologia de videomonitoramento às ações das forças de segurança pública. Por meio do programa Vigia Mais Mato Grosso, Sorriso recebeu 335 câmeras de videomonitoramento. As imagens das câmeras são acompanhadas no Ciosp (Centro de Operações em Segurança Pública) em celulares pelos policiais durante seus turnos de trabalho.

O governo também chamou a população a colaborar no combate às facções criando, em março deste ano, um canal específico para denúncias. É o disque-extorsão 181, número pelo qual se pode fazer denúncia para ajudar em investigações e prisões. Esse oferece a garantia de sigilo absoluto do denunciante.

Violência contra mulher

À exemplo de outras formas de violência contra a mulher, o Governo de Mato Grosso tem investido em ações preventivas e de combate à violência contra a mulher.

– Em 2024, o índice de resolução também alcançou 100%. Os 47 inquéritos de feminicídio foram concluídos com autoria definida e as investigações resultaram em 36 prisões.

– Em Cuiabá, foi implementado o Plantão 24 Horas de Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica e Sexual, oferecendo atendimento de emergência ininterrupto às vítimas.

– Implantou, em 2023, o auxílio moradia, no valor de R$ 600, por meio do SER Família Mulher. Atualmente, 646 mulheres são atendidas pelo programa.

– Setasc e Sesp firmaram termo de cooperação para pagamento de horas extras a policiais civis e militares e bombeiros que atuarem nas ações do programa SER Família Mulher, fortalecendo o combate à violência contra as mulheres.

– Também por meio da Setasc, a Sesp e a Polícia Civil participaram da Expedição MT por Elas, visitando as 15 Regionais do Estado para capacitar toda a rede de proteção.

– Em 2024, a Polícia Civil inaugurou a sala do Plantão Especializado de Atendimento à Mulher e Vulneráveis em Rondonópolis e outra no plantão de Várzea Grande, para garantir acolhimento humanizado para mulheres.

– Ainda em 2024, houve a criação da Superintendência de Políticas Públicas para as Mulheres – SER Família Mulher.

– Também foi estabelecida a Coordenadoria de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher e Vulneráveis, sob a responsabilidade da Polícia Judiciária Civil, para garantir os direitos das mulheres e grupos vulneráveis.

– Criação do Projeto Casa de Eurídice, que oferece atendimento virtual multidisciplinar, incluindo orientação jurídica com advogados credenciados, apoio psicológico via plantão social no WhatsApp, assistência social e inserção produtiva por meio de cursos de qualificação, como o programa SER Família Capacita.

– A Patrulha Maria da Penha, conduzida pela Polícia Militar, orienta e acompanha o pós-ocorrência para evitar a reincidência do crime contra a mulher.

– Câmara Temática de Defesa da Mulher, conduzida pela Secretaria de Segurança Pública (Sesp) com representantes das forças de segurança de Mato Grosso, do Sistema de Justiça e outras instituições, com o objetivo de discutir e planejar ações integradas para ampliar o combate à violência contra a mulher.

Procurada, a Prefeitura de Sorriso enviou release em que comemora a saída da cidade do ranking das 10 mais violentas e atribui o resultado à atuação do sistema de Justiça e das forças policiais, bem como à criação de uma rede unificada para acolhimento de mulheres, crianças, adolescentes e idosos.

Modelo desenvolvimentista proporcionou rotas para crime organizado

O município de Sorriso foi formado nos anos 1970, em plena ditadura militar. Professor do Departamento de História da UFMT, Vitale Joanoni Neto explica que a atuação dos militares nessa região  apostou em um modelo desenvolvimentista, sob a justificativa de “segurança nacional”, que passou por cima de povos originários e comunidades locais. 

Um dos principais projetos foi a construção da BR-163, que vai de Tenente Portela (RS) a Santarém (PA). No trecho mato-grossense, a rodovia divide Sorriso em duas partes.

BR-163 Road, which connects the cities of Cuiaba (Mato Grosso) - Santarém (Para) and through which it crosses most of the soybeans and corn exported from Brazil. Government intends to extend the road to the border with Suriname.
Caminhões parados na BR 163, rodovia que corta o Mato Grosso e divide Sorriso ao meio (Foto: João Laet/Repórter Brasil)

O professor classifica essa divisão como um “apartheid social” com consequências percebidas até hoje, devido à velocidade do fluxo migratório para o município e à infraestrutura insuficiente para o atendimento da população. 

“No lado direito da rodovia, tinha uma cidade organizada, com toda a estrutura que o projeto colonizador proporcionava.  Quando se emancipou o município, a prefeitura cuidava”, explica Joanoni Neto. “Do lado esquerdo da rodovia, tinha os trabalhadores que migravam com suas famílias, não tinham grande recurso. Eles ocupavam áreas irregularmente, sem o acompanhamento do poder público”, complementa.

Outra rodovia relevante é a BR-242, que vai de Sorriso a Maragogipe (BA). Essas novas rotas, inicialmente planejadas para o escoamento da produção agrícola, criaram condições propícias para o deslocamento e a abertura de novos mercados por grupos criminosos, avalia Edson Benedito Rondon Filho, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFMT e também membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Um deles, indica, é o roubo de agrotóxicos, produtos considerados de alto valor. “Além do roubo e do furto, o problema também é o receptador”, diz Rondon Filho. “E aí tem uma relação muito implicada com o agro porque, se você rouba insumos e defensivos agrícolas, você tem que vender para quem trabalha com a terra”, complementa o professor.

Em 2021, foi criada a Patrulha Rural, vinculada à Polícia Militar, para monitorar áreas a que o policiamento não chega com facilidade.

O pesquisador Naldson Ramos ressalta que o poder público tem apostado mais em repressão do que em investigação e prevenção — o fato de a polícia responder por  18,7% de todas as mortes violentas em 2024 no município aponta para essa conclusão. 

“O governo deu para a polícia carta branca para matar”, afirma Nadson Ramos. “Boa parte desses homicídios são ligados ao confronto com a polícia. Agora, nós sabemos que nem sempre existe o confronto. Basta que a pessoa tente fugir ou basta que a pessoa tenha uma ficha criminal  já é conhecida, normalmente ela é eliminada”, finaliza.

REPÓRTER BRASIL

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