A análise também aponta forte concentração territorial dos recursos
O crédito rural segue no centro da estrutura econômica da agropecuária brasileira e ganha nova importância diante do avanço da agenda climática. Segundo artigo de Luis Eduardo Pacifici Rangel, membro do Conselho Científico do Agro Sustentável e ex-diretor de Análise Econômica e Políticas Públicas do MAPA, a sustentabilidade começa a entrar no sistema de financiamento, mas ainda de forma periférica.
O texto mostra que, entre 2019 e 2023, o volume do crédito rural controlado analisado saltou de cerca de R$ 16 bilhões para quase R$ 45 bilhões, com base em dados do SICOR. Apesar da alta expressiva, a expansão ocorreu mais pelo aumento do valor médio das operações do que pela ampliação do número de contratos, preservando a lógica tradicional do sistema.
As modalidades de custeio continuam dominando a oferta de crédito, enquanto linhas ligadas à sustentabilidade, como ABC+ e Renovagro, ainda têm participação reduzida. Na prática, isso indica que a agenda ambiental já foi incorporada formalmente, mas ainda não reorganiza a arquitetura do financiamento agrícola.
A análise também aponta forte concentração territorial dos recursos, com maior presença no Centro-Oeste, Sul e partes do Sudeste. Esse padrão acompanha a geografia produtiva já consolidada no país, mas também sugere espaço para mudanças de grande alcance.
Segundo as simulações citadas no artigo, cerca de 45% do volume de crédito analisado poderia ser requalificado com condicionalidades ambientais progressivas, sem necessidade de ampliar orçamento ou criar novos instrumentos. A avaliação é que a transição sustentável tende a ser mais efetiva se atingir o núcleo do sistema, especialmente as linhas de custeio e financiamento amplo, incorporando critérios ambientais à elegibilidade e à precificação do crédito.
“O Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de financiamento agrícola do mundo. Em um contexto internacional marcado pela crescente incorporação do risco climático nas decisões financeiras, a capacidade de integrar critérios ambientais à arquitetura do crédito rural pode se tornar um dos principais diferenciais estratégicos da política agrícola brasileira nas próximas décadas”, conclui.
Agrolink – Leonardo Gottems
Publicado em 16/03/2026 às 14:18h.
