Prejuízos não ficam restritos ao campo.
O avanço da produção de soja no Brasil não tem sido acompanhado por práticas eficientes de controle de pragas na armazenagem. A falta de monitoramento e manejo adequado no pós-colheita já impacta a qualidade dos grãos e eleva custos industriais, tornando o problema estratégico para o setor.
O Brasil consolidou sua posição como um dos maiores produtores globais de soja, mas enfrenta um desafio estrutural: a armazenagem não evolui no mesmo ritmo da produção. Esse descompasso abre espaço para perdas silenciosas dentro dos silos.
Segundo o gerente técnico da Qualygran Tecnologia Agroindustrial, Otávio Matos, o problema vai além da logística e atinge diretamente a qualidade do produto. “A armazenagem de soja vem enfrentando desafios com o aumento da produção e a falta de estruturas adequadas. Além disso, a pesquisa tem priorizado produtividade no campo, mas pouco se avançou em características que favoreçam a conservação dos grãos”, afirma.
Na prática, a ausência de manejo favorece o surgimento de pragas como traças e besouros, incluindo espécies do gênero Lasioderma, que atacam os grãos durante o armazenamento. Esses insetos causam danos físicos diretos e abrem portas para problemas ainda maiores. “Eles afetam o peso final do produto e desencadeiam contaminações por fungos e bactérias. Isso compromete a qualidade e gera impactos ao longo de toda a cadeia”, explica Matos.
Os prejuízos não ficam restritos ao campo. A deterioração dos grãos durante a armazenagem aumenta a acidez da soja, o que gera custos adicionais para a indústria. “Esse processo eleva os custos para estabilização do óleo de soja, seja para consumo humano, biocombustível ou produção de farelo”, destaca o especialista.
Apesar disso, o mercado ainda não penaliza de forma consistente a presença de pragas na soja — ao contrário do que ocorre com culturas como milho, trigo e arroz. A ausência de exigências comerciais contribui para a perpetuação do problema no setor. “Com a falta de cobrança do mercado, a contaminação por insetos segue aumentando. O tema não recebe a importância necessária, nem de forma preventiva nem corretiva”, alerta Matos.
Esse cenário cria um ciclo contínuo de infestação, onde armazéns permanecem contaminados de uma safra para outra. Erro crítico: produtor ainda não enxerga armazenagem como estratégia. Um outro ponto central é a visão equivocada sobre o pós-colheita. Muitos produtores ainda tratam a armazenagem como etapa final do processo produtivo.
Para Matos, essa percepção precisa mudar com urgência: “O paradigma atual é que soja armazenada não tem problema com pragas. Isso leva ao uso eventual e inadequado de métodos químicos, mantendo os armazéns contaminados e favorecendo a resistência dos insetos”, afirma.
O momento de agir começa antes mesmo da infestação ser visível. O monitoramento contínuo é essencial para identificar pragas, origem e nível de infestação.
No entanto, na prática, o foco ainda está em outros indicadores. “Hoje, a preocupação dos armazenadores está na temperatura, umidade e impurezas. O controle de insetos praticamente não existe”, ressalta Matos.
Apesar da gravidade do problema, soluções simples podem trazer resultados expressivos. A principal delas é a higienização das estruturas de armazenamento. “A lavagem com água das estruturas já representaria um avanço gigantesco, podendo resolver mais de 90% do problema”, afirma o gerente técnico.
“Fatores como umidade, temperatura e compactação favorecem a reprodução dos insetos. Controlar esses pontos é essencial para reduzir o problema”, explica Matos. “Somente com mudança de postura — seja por exigência do mercado, fiscalização ou conscientização — será possível avançar no controle de pragas na soja armazenada.
Agrolink – Aline Merladete
Publicado em 23/04/2026 às 11:50h.
