Talk show aborda os impactos dos conflitos sobre o agro, a economia e o futuro
O avanço das tensões geopolíticas no Oriente Médio, somado à instabilidade climática e ao aumento dos custos de produção, tem ampliado a preocupação do agronegócio brasileiro diante de um cenário de incertezas para os próximos meses. A valorização do petróleo, impulsionada pelos conflitos internacionais, já pressiona os custos logísticos, fertilizantes e insumos utilizados no campo, enquanto especialistas alertam para riscos de desabastecimento e perda de competitividade.
O tema foi debatido na 31ª edição do talk show “A Voz do Mercado”, realizada nesta quarta-feira (13), com mediação de Ivan Wedekin e Suelen Farias. O encontro teve como tema “O Agro e as Guerras: Impactos sobre o setor, a economia e o futuro” e reuniu representantes do mercado, da indústria e da logística para discutir os reflexos dos conflitos globais sobre cadeias de abastecimento, fertilizantes, comércio internacional, segurança alimentar e infraestrutura.
Participaram do debate Alfredo Kober, CEO da ICL América do Sul, José Roberto, sócio fundador da MB Associados, e Maxwell Rodrigues, empresário, palestrante e apresentador de TV. A transmissão foi realizada ao vivo pelo canal do Portal Agrolink no YouTube.
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José Roberto alerta para risco de recessão e desabastecimento
Durante o debate, José Roberto afirmou que o cenário internacional já provoca efeitos concretos sobre os preços globais e aumenta o risco de desaceleração econômica. Segundo ele, os impactos começaram a ser sentidos logo nos primeiros meses do conflito.
“O risco está maior. Até uns dois meses do conflito, nós já tivemos um choque de energia de forma bastante significativa. Que se traduziu numa pressão de preços que se espalhou pelo mundo todo. Tanto no ponto de vista do petróleo e os seus derivados, fertilizantes, petroquímicos, um conjunto grande de produtos. Até mesmo o enxofre está sendo afetado pela importância da região, mas a atividade econômica nessa primeira fase, ela não sofreu tanto diretamente porque de um lado quando a guerra começou existiam muitos navios que estavam em direção aos países consumidores e essa viagens levam 20, 25 ou 30 dias. Então nessa primeira fase da guerra continuou chegando produtos nos países consumidores e ao mesmo tempo eles começaram a se utilizar dos estoques disponíveis, então teve um efeito imediato no preço, expectativas, mas não teve um efeito na produção.”
Na avaliação do economista, o prolongamento do conflito e a permanência de gargalos logísticos elevam o risco de escassez de produtos e de medidas protecionistas adotadas por diferentes países. “Dado o impasse do cessar fogo, e dado o Estreito de Ormuz continuar fechado, os países começam a entrar perigosamente numa fase onde o perigo de faltar coisas acontece. E nós já estamos vendo essas situações e as defesas que os países fazem. Por exemplo, a China proibiu a exportação de certos tipos de produtos e derivados. Outros países estão fazendo o mesmo.”
José Roberto também destacou que o agronegócio brasileiro já enfrenta aumento nos custos operacionais devido à valorização do diesel e dos fertilizantes. “Para a agricultura brasileira, já é um choque de custos, porque o diesel subiu de preço, preços de fertilizantes também subiram. Nós estamos entrando nessa fase que é muito perigosa, e o pior é que não há expectativa nenhuma quanto a um cessar fogo.”
Segundo ele, mesmo que haja um acordo diplomático nos próximos dias, os impactos econômicos ainda devem persistir por meses. “No momento em que um cessar fogo com credibilidade possa ser assinado ainda levaram 6, 8 ou 10 semanas para os fluxos de vendas de produção e distribuição começarem a se normalizar. E você voltar a ter melhora nos estoques dos países consumidores, ou seja, nós já temos um problema contratado para os próximos 2 ou 3 meses por mais que se faça um acordo.”
Maxwell Rodrigues aponta fragilidade logística brasileira
Ao abordar os reflexos da crise sobre o transporte marítimo e os custos de frete, Maxwell Rodrigues afirmou que o Brasil sofre impactos imediatos sempre que há instabilidade no mercado internacional, principalmente pela dependência logística externa e pela deficiência estrutural do país. “no nosso micro sistema, no Brasil a gente sofre naturalmente o reflexo imediato com qualquer marola no mercado internacional se torna um grande tsunami dentro do nosso país. Um tsunami porque nós não temos uma indústria estabelecida dentro do país, uma estrutura muito bem elaborada.”
Segundo ele, a ausência de uma logística eficiente de retorno para cargas importadas aumenta os custos para o agronegócio brasileiro. “Nós temos uma falta de infraestrutura significativa, e quando eu ouço questões direcionadas a importação de insumos para o nosso agronegócio, nós temos um impacto logístico significativo porque a gente não trata do frete de retorno, a gente exporta muito e obrigatoriamente a gente não consegue ter fluidez logística para que tenhamos um bom frete de retorno e façamos uma redução do nosso custo.”
Maxwell Rodrigues afirmou ainda que o cenário internacional passa por uma reorganização das rotas marítimas globais, o que pode abrir oportunidades para o Brasil, desde que o país avance em infraestrutura e políticas públicas. “Nós temos hoje um novo arranjo logístico mundial, nós nos acostumamos e sabemos que boa parte com o maior percentual das transações comerciais no mundo é feito por mar, e no Brasil são 90% de tudo aquilo que nós temos de transação com o mundo é feito por mar.”
Para ele, o país precisa aproveitar o momento para reduzir gargalos históricos e ampliar a competitividade do agronegócio. “A grande pergunta é, ‘se nós estamos preparados para fazer essa lição de casa, se nós estamos com políticas públicas para que a gente possa fazer o enfrentamento da falta de infraestrutura.’ Particularmente no meu entendimento o esforço desprendido pelo agronegócio é um sucesso alcançado e a próxima etapa está ligada diretamente a infraestrutura que nós temos no nosso país. Infraestrutura essa extremamente crítica e que afeta diretamente a nossa competitividade.”
Alfredo Kober destaca pressão financeira no campo
Representando a indústria de insumos, Alfredo Kober afirmou que o aumento dos custos das matérias-primas e dos juros tem ampliado a dificuldade financeira dos produtores rurais. “ O grande impacto que a gente viu é o aumento das matérias primas, se nós retrocedemos uns anos, em 2021 no período da pandemia, começamos o ano com um índice de 2% na taxa Selic e terminamos com 9%. E agora estamos numa taxa de 15%, com a perspectiva que havia de redução de juros que não se confirma para esse ano.”
Segundo o executivo, o aumento dos custos compromete diretamente a capacidade de compra de insumos pelos agricultores e reduz as margens das principais culturas do país. “Nós temos um primeiro grande impacto pelo do aumento nos custos nessas matérias primas e na dificuldade do produtor de adquirir os insumos. Todos os insumos com esse crescimento exorbitante impactam na capacidade de pagamento e na projeção de rentabilidade dos agricultores.”
Kober afirmou que a soja, principal cultura agrícola brasileira, já opera com margens próximas de zero em algumas regiões, especialmente diante do avanço das dívidas acumuladas nos últimos anos. “A principal cultura, a soja, neste ano a perspectiva é com a margem próxima a 0, isso sem considerar esse acúmulo de juros (taxa Selic + Spread), nós estamos falando de produtores que estavam endividados a quatro anos atrás e a dívida deles quase dobrou nesse período.”
O executivo também alertou para possíveis problemas de abastecimento de fertilizantes na próxima safra, uma vez que a indústria ainda trabalha com estoques reduzidos. “Isso complica bastante o cenário porque 3 meses para fazer um ajuste na oferta, nós vamos estar exatamente no começo da safra e com risco de volatilidade que diferente do ano de 2023, onde o mercado estava abastecido e depois houve uma redução no preço desses insumos, nesse momento nós temos um baixo abastecimento.”
Segundo Alfredo Kober, o cenário já provoca retração nas compras e menor aplicação de fertilizantes pelos produtores. “A indústria não está com o estoque preparado para atender toda a safra, porque ela está aguardando também essa confirmação. E isso é um aspecto que vai levar a uma redução da aplicação de fertilizantes. Esse aumento tem resultado numa paralisia no mercado”.
A edição do talk show contou com apoio da Abisolo e do Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial, ligado à Fundação Instituto de Administração, com foco na ampliação do debate sobre temas estratégicos para o agronegócio brasileiro.
Agrolink – Seane Lennon
Publicado em 13/05/2026 às 19:45h.
