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RONDONOPOLIS-MT: Neste dia 10, chega aos seus 111 anos de fundação

A História e a memória de Rondonópolis têm que ser resgatadas, para que seus moradores não corram o risco de perdê-las, irremediavelmente. Por exemplo: há um desconhecimento e até uma certa confusão quando se fala em data de fundação e em data de emancipação. Afinal, é certo dizer que Rondonópolis teria completado 72 anos em 10/12/2025 (Emancipação) e na data de 10/08/2026 comemora-se a sua Fundação?

Diante desses dados esclarecemos que, ambas datas são marcos históricos importantes e que, embora correspondam a processos distintos, elas estão relacionadas à organização administrativa e territorial local.

A fundação está relacionada ao estabelecimento inicial de povoamento às margens do rio Vermelho, nos primeiros anos do século XX; enquanto a emancipação envolve a independência da cidade em relação à Poxoréu, que marca o nascimento do município de Rondonópolis em 1953.

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TERRAS FÉRTEIS E LOGÍSTICA

Rondonópolis é uma cidade conhecida por suas terras férteis e localização privilegiada, imbricada no entroncamento das rodovias BR-163 e BR-364, que ligam as regiões Norte/Sul do país, sendo o portal da Amazônia e a entrada para o pantanal mato-grossense.

Por essas estradas, até 2013 (data da inauguração da Ferronorte), transitava toda a produção de nossa agroindústria e pecuária, fazendo com que esta chegasse às grandes cidades e portos do país, onde eram comercializadas (Santos-SP, Paranaguá-PR, Vitória – ES).

O início do povoamento e a fundação local aconteceram no início do século XX, contudo, somente depois de 1948 é que o vilarejo apresentou indícios de aumento demográfico e retomou o crescimento.

Tais dados emergem a partir do momento em que Rondonópolis é inserido no contexto capitalista de produção como fronteira agrícola mato-grossense, resultado da política de Sistema de Colônias implantado pelo governador Arnaldo Estevão de Figueiredo.

Nesses termos, a emancipação de Rondonópolis só veio a acontecer em 10 de dezembro de 1953 e o “boom” do município se tornou realidade depois de 1970, com o advento do grande capital e da modernização do campo.

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“Hoje, Rondonópolis tem mais de 260.000 habitantes, não é capital de Mato Grosso, mas funciona como se fosse – maior exportador do Estado se consolidou como o principal polo urbano do interior e um dos pontos mais estratégicos da logística nacional” (TERRA TREND 2025).

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Assim é Rondonópolis!

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Os primeiros sinais de vida em terras que hoje pertencem ao município de Rondonópolis datam de pelo menos cinco mil anos atrás – segundo pesquisas realizadas no sítio arqueológico Ferraz Egreja, no local conhecido por Cidade de Pedra (Foto – Arquivo)

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HERÓIS ANÔNIMOS

Ao longo de sua história, Rondonópolis viu homens e mulheres audazes, esperançosos por encontrar um eldorado, deslocarem-se de seus rincões e aportarem pelas bandas do Rio Vermelho em busca de novas oportunidades de trabalho e de realização; enfim, em busca por melhores condições de vida. São essas pessoas, os heróis anônimos, que representam grande parte da força de construção e da história de Rondonópolis: migrantes mato-grossenses, nordestinos (da Bahia, de Pernambuco, do Ceará, do Maranhão), paulistas, mineiros, goianos, paranaenses, catarinenses, gaúchos ao lado de estrangeiros libaneses, árabes, japoneses, espanhóis, sul-americanos e outros – hoje já abriga descendentes até de quarta geração.

Na realidade, todos nós, moradores de Rondonópolis, somos responsáveis pelo destino do lugar, nós somos partícipes dessa mesma empreitada, ou seja: a de amar, a de construir e a de cuidar de nossa cidade.

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E A CIDADE SE PERDE

Celio Sesti, em “As histórias que herdamos também constroem quem somos hoje” (A TRIBUNA, junho26), destaca a importância de ser cidadão. Ele é neto do Sr. Marcelino Gomes dos Santos e diz que viu a fotografia de seu avô registrada em página do livro “Rondonópolis-MT: um entroncamento de mão única” (TESORO,1993).

Beirando a emoção, Célio conta que:

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“Quando vi aquela foto, não enxerguei apenas meu avô. Enxerguei uma geração inteira. Uma geração de pioneiros que chegou quando Rondonópolis ainda estava sendo construída. Gente que enfrentou dificuldades, trabalhou duro, criou família e ajudou a transformar este lugar no que ele é hoje. E pensei em quantas famílias têm histórias parecidas.

Quantas pessoas andam pelas ruas de Rondonópolis sem perceber que suas próprias histórias também fazem parte da memória deste município. No fim das contas, todos nós somos continuação de uma história. E, às vezes, basta uma fotografia antiga para lembrar que ninguém chega sozinho até aqui” – e em lugar algum!

O fato é que os pioneiros e migrantes já idosos estão partindo, e as “pedras” (ou “monumentos” históricos representativos de uma época) tem desaparecido, às vezes, mesmo antes das pessoas.

É o caso de inúmeras casas e estabelecimentos que são demolidos em nome da modernidade, como o Correio antigo da Avenida Marechal Rondon ou o Cine Teatro Ipê da Avenida Cuiabá – palco de tantas apresentações, shows e histórias, ultrapassado pelo tempo, virou pó – foi demolido no último final de semana de julho, para servir de local para um futuro empreendimento de destaque.

Isto traduz os descaminhos da memória e da história local, que aos poucos perdem espaço para o novo e para o capital. Fato é que, em muito pouco tempo, teremos bem poucas histórias antigas a serem rememoradas e a cidade talvez seja reconhecida apenas em páginas de algum livro esmaecido, perdido em alguma estante de alguém, esquecido pelo que restou de seu tempo, também. Não é saudosismo, é constatação!

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Baseado no Decreto Lei nº 395, de 10 de agosto de 1915, foi que a Povoação do Rio Vermelho passou a existir oficialmente no mapa do Estado e teve garantida a sua Carteira de Identidade. A vista aérea é de 1953 (Foto – Arquivo)

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INÍCIO E OCUPAÇÃO

Os primeiros sinais de vida em terras que hoje pertencem ao município de Rondonópolis datam de pelo menos cinco mil anos atrás – segundo pesquisas realizadas no sítio arqueológico Ferraz Egreja, no local conhecido por Cidade de Pedra.

A partir de meados do século XIX, ocorreram várias tentativas de ocupação na confluência das águas do rio Vermelho e córrego Arareau. Todavia, as referidas tentativas foram passageiras e não redundaram em povoamento: sejam os grupos de índios bororo que se embrenharam pelas matas e nascentes de rios; seja a presença de comitivas de faiscadores que se aventuraram na região à procura de ouro e pedras preciosas; ou ainda o efetivo de destacamento militar que permaneceu em Ponte de Pedra de 1875 a 1890.

Por último, chegaram as expedições da Comissão Construtora das Linhas Telegráficas Gomes Carneiro (1907/1909), sob o comando do então primeiro-tenente Cândido Rondon, que determinaram o traçado da linha telegráfica para interligar o Estado de Mato Grosso e Amazonas ao resto do país – fruto dessa investida, é inaugurado em 1922 o posto telegráfico às margens do rio Pogubo (rio Vermelho).

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POVOAMENTO

O povoamento propriamente dito de Rondonópolis veio a acontecer a partir de 1902, com a fixação de famílias procedentes de Palmeiras de Goiás, Cuiabá e outras regiões do Estado que vêm em viagens isoladas e se fixam às margens do Rio Vermelho, sob a liderança de José Rodrigues e Jerônimo Lopes Esteves.

Eles construíram o povoado que, em 1915, era habitado aproximadamente por setenta famílias, que detinham certa organização econômica (com economia de subsistência), e certa organização social e política – além de uma preocupação com as primeiras letras, efetivadas com a criação de Escola e do primeiro professor nomeado pelo Estado, Odorico Leocádio Rosa.

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A mudança do nome do povoado para Rondonópolis aconteceu em 1918, resultado de uma homenagem efetuada pelo deputado Otávio Pitaluga ao Marechal Rondon (Foto – Arquivo)

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DOCUMENTO DE IDENTIDADE

A Povoação do rio Vermelho passou a existir oficialmente ao receber a sua carteira de identidade, através do Decreto Lei nº 395, assinado pelo presidente de Estado do Mato Grosso, Joaquim da Costa Marques, em 10 de agosto de 1915.

O referido decreto estabelece uma reserva de 2000 hectares para o “Rocio da Povoação do Rio Vermelho” (local da futura Rondonópolis) e marca oficialmente a existência do povoado. A importância do decreto foi reconhecida e respaldada pela Lei Municipal nº 2.777, de 22 de outubro de 1997, que promulga a data de 10 de agosto como a data de fundação de Rondonópolis.

A mudança do nome do povoado para Rondonópolis aconteceu em 1918, resultado de uma homenagem efetuada pelo deputado Otávio Pitaluga a Cândido Mariano Rondon, que passa a ser considerado o patrono do lugar. Em 1920, Rondonópolis transforma-se em distrito de Santo Antônio do Leverger e comarca de Cuiabá, passando a ter os cargos de juiz de paz, de escrivão e de delegado.

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PREVISÕES

Orozimbo Correa Neto, em seu livro publicado no Rio de Janeiro, em 1920 (“Águas Termais de Mato Grosso”, livro 62), aborda sobre a Rondonópolis da época.

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“A situação da futura vila já demarcada, à margem de dois rios navegáveis e seu excelente clima, muito favorecem seu rápido crescimento. Matas ricas de madeiras de lei existem em toda a região.

“Na margem oposta à povoação estão os terrenos da fazenda Jurigue e, do lado do Arareau, tem sua fazenda o Capitão Otávio Pitaluga.

“O elemento indígena, representado por aldeamento de índios Bororo, está espalhado ao redor da povoação, onde eles são vistos continuamente.

“A população atual é pequena, mas a invasão dos garimpeiros e dos que vêm à procura dos minérios, pode trazer importante elemento de progresso. Dizem que a estrada de ferro para Cuiabá terá fatalmente que passar por Rondonópolis.”

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Todavia, ao contrário do que Orozimbo Correa Neto previra, Rondonópolis teve que aguardar e esperar por mais algumas décadas para sentir desabrochar o seu crescimento e inaugurar a tão sonhada ferrovia.

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RETROCESSO

Na década de 20, o recém-criado distrito, que tinha mais de setenta famílias de moradores, começa a sofrer problemas, com enchentes, epidemias e desentendimento entre os moradores. No mesmo período, João Arenas descobre os garimpos de diamantes na vizinha região de Poxoréu (1924).

A combinação desses fatores provoca o processo de despovoamento de Rondonópolis, ao mesmo tempo em que os garimpos projetam o crescimento de Poxoréu que, em 1938, foi elevado à categoria de município. Em consequência, pelo fator proximidade, Rondonópolis passa a ser distrito de Poxoréu, cuja Lei Estadual nº 218, de 1938, outorga àquele município a prerrogativa de decidir sobre os destinos de nossa região.

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DEPOIMENTOS IMPORTANTES

O fato é que, de 1930 a 1947, as margens do rio Vermelho se esvaziaram a olhos vistos. Sobre isso, o bispo prelado Dom Vunibaldo, relembra a passagem por Rondonópolis quando viajava para Chapada dos Guimarães, em 1942:

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“(…) existia três casas: a Missão Protestante, a casa do correio e uma tapera onde morava o balseiro.”

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Em abril de 1947, a Irmã Thereza Marangoni comenta que, de passagem pelo vilarejo, observou que “Rondonópolis era um pequeno povoado que mais se parecia com um sertão, coberto de cerrado por todos os lados. Só existia uma rua onde se situava o Correio e, mais para baixo, a casa do Moisés Cury e a do senhor Jacinto Xavier, que era guarda-linha do telégrafo, e ainda uns três ou quatro ranchinhos. Era só.”

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Curioso é o depoimento do historiador Lenine Póvoas que afirma: Ao passar por Rondonópolis, em meados de 1948, teria visto mais de cinquenta ranchos e uma vila que se instalava. Ou seja, naquele momento, evidencia-se o início de crescimento demográfico e de mudanças que desaguaram na fase de emancipação político-administrativa da cidade em relação à Poxoréu – em 10 de dezembro de 1953, Rondonópolis passou à condição de município através da Lei 666.

Antes de viver a emancipação, em 1953, Rondonópolis passou por um longa caminhada; houve todo um “caminhão de história” que ficou vagando pelos caminhos empoeirados das estradas improvisadas e que deixaram o vilarejo quase que esquecido… Por pouco não se perdeu no tempo!

Então, quando alguém afirmar que Rondonópolis tem apenas 72 anos, está colocando uma pá de cal às raízes do processo de povoamento que antecederam 1953, como: o esforço, a labuta e a importância daquela população que aqui se estabeleceu, que representa a força de construção, da memória e da história dos primeiros anos de Rondonópolis.

Portanto, ignorar a fundação é destruir o trabalho e a importância dos povoadores que se estabeleceram na confluência do Arareau com o Pogubo (rio Vermelho), nos primeiros anos do século XX.

Ou seja, sem “fundação” não existe processo de emancipação, os dois marcos históricos são integrantes da organização administrativa e territorial local e igualmente têm que ser estudados e comemorados pelos rondonopolitanos.

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COMEMORAÇÃO

A fundação de Rondonópolis deveria ser mais conhecida, celebrada e integrada às políticas culturais da cidade. A fundação poderia ser estudada, enquanto memória histórica e eixo de inspiração para se refletir sobre urbanismo, cultura, cidadania e valorização das raízes locais, mostrando como o passado pode ser usado para pensar o futuro da cidade.

Além disso, a memória da fundação poderá propor eventos que unam a fundação e emancipação, reforçando a ideia de continuidade histórica – poderia também se difundir a ideia de uma celebração dupla, unindo fundação (1915) e emancipação (1953) em um calendário cultural mais rico.

Para a organização das comemorações, haveria de se envolver parcerias institucionais como prefeitura, escolas, associações culturais, criar projetos escolares e comunitários que resgatem documentos e memórias da fundação e da emancipação.

Rondonópolis, parabéns pelos seus 111 anos de fundação!

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(*) Luci Léa Lopes Martins Tesoro, doutora em História Social pela USP e autora do livro “Rondonópolis-MT: um entroncamento de mão única” – lllmt@terra.com.br

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Fonte jornal a tribuna de Rondonopolis

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