Como um povoado erguido às margens do Rio Lira, no meio do cerrado mato-grossense, se transformou na maior potência agrícola do país e nos desafios que a cidade enfrenta para não depender só da soja.
Quem viaja pela BR-163, no quilômetro 742, no norte de Mato Grosso, encontra uma paisagem que resume o que o Brasil tem de mais competitivo no campo: lavouras que se estendem até onde a vista alcança, silos que cortam o horizonte, caminhões carregados de grãos em fila e uma cidade de pouco mais de 120 mil habitantes que carrega, com orgulho, o título de Capital Nacional do Agronegócio. Essa cidade é Sorriso, e sua história é, em boa medida, a história da própria expansão da fronteira agrícola brasileira rumo ao Centro-Oeste.
Sorriso não nasceu como uma vila de pescadores ou um entroncamento comercial espontâneo. Ela foi planejada, loteada e vendida, um produto de colonização privada que, em menos de cinco décadas, se tornou sinônimo de produtividade agrícola em escala industrial.
A ocupação da região começou no início dos anos 1970, quando terras do norte mato-grossense passaram a ser negociadas para a implantação de projetos agropecuários, num contexto de incentivos governamentais para a colonização do que então era considerado sertão. Em 1977, o empresário catarinense Claudino Francio, à frente da Colonizadora Feliz, oficializou a fundação do povoado que receberia o nome de Sorriso, batizado por um grupo de pioneiros que, instalados às margens do Rio Lira, teriam decidido que manter o otimismo no rosto era o combustível necessário para enfrentar o trabalho duro de desbravar a terra.

A maior parte dos colonizadores vinha do Sul do país, muitos de origem italiana e alemã, atraídos pela oferta de lotes a preços acessíveis e pela promessa de terras férteis e baratas. Elevado à condição de distrito em 1980 e emancipado como município em 13 de maio de 1986, Sorriso cresceu seguindo o mesmo roteiro de outras cidades do chamado “arco de expansão” do agronegócio: primeiro veio a pecuária extensiva, depois a abertura de áreas para lavouras de grãos, sustentada pela correção do solo ácido do cerrado com calcário e pelo desenvolvimento de variedades de soja adaptadas ao clima tropical.
O resultado, décadas depois, impressiona pelos números.

O maior valor de produção agrícola do Brasil
Segundo os dados mais recentes da Produção Agrícola Municipal (PAM), pesquisa do IBGE divulgada em 2025 com referência ao ano de 2024, Sorriso lidera o ranking nacional de valor de produção agrícola entre todos os municípios brasileiros, com um total de R$ 7,2 bilhões, impulsionado principalmente pela soja. A oleaginosa sozinha respondeu por uma colheita de 2,08 milhões de toneladas, gerando um valor de R$ 3,3 bilhões, quase metade de tudo o que o município produziu naquele ano (fonte: IBGE/PAM 2024).
O milho também tem papel de destaque na economia sorrisense. Em 2024, o município se consolidou como o maior produtor do país no grão, com 3,7 milhões de toneladas e valor de produção de R$ 2,4 bilhões. Vale destacar que, embora a soja seja o carro-chefe, Sorriso não é mais, isoladamente, o maior produtor do grão em volume no país: em 2024, o título de maior produtor municipal de soja passou para São Desidério, no oeste da Bahia, que colheu 2,09 milhões de toneladas contra os 2,08 milhões de Sorriso, uma diferença de apenas 0,4% entre os dois municípios. Ainda assim, somando todas as culturas, soja, milho, algodão e feijão, Sorriso manteve a liderança nacional em valor total da produção agrícola (fonte: IBGE/PAM 2024).
Esse desempenho não é fruto do acaso, mas de uma engrenagem que envolve solo corrigido, clima favorável, sementes de alta tecnologia, maquinário de precisão e sobretudo, escala. A pujança do município também reflete a força do estado como um todo: Mato Grosso concentra seis das dez cidades brasileiras com maior valor de produção agrícola, e o estado, mesmo tendo registrado retração em 2024, ainda respondeu por 15,4% de todo o valor da produção agrícola nacional naquele ano (fonte: IBGE/PAM 2024).

Recorde de soja e um estado que não para de crescer
Mais recentemente, os números seguem em trajetória de expansão. Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostram que o Valor Bruto da Produção agrícola de Mato Grosso somou R$ 162,4 bilhões em 2025, um avanço de 18,21% em relação a 2024, com a soja respondendo por 56,91% desse total (fonte: Imea), crescimento puxado principalmente pela expansão da área plantada e por ganhos de produtividade, já que o preço médio da commodity recuou no período.
Para a safra 2025/2026, as projeções seguem otimistas. Levantamentos do Imea no início de 2026 apontavam produtividade da soja mato-grossense em torno de 64,73 sacas por hectare, um patamar 7% superior ao da safra anterior, com o estado projetando nova safra recorde de mais de 50 milhões de toneladas. Mato Grosso, hoje, é responsável por cerca de 32% de toda a produção brasileira de grãos, tendo superado a marca de 111,9 milhões de toneladas na safra 2024/25 (fonte: Imea). Sorriso, dentro desse cenário, também se destaca no comércio exterior: o município figura como a 19ª maior cidade exportadora do Brasil, com vendas externas superiores a US$ 2,6 bilhões por ano (fonte: Agro Nortão/Imea).

O papel da tecnologia e da irrigação
Se a fama de Sorriso é sinônimo de soja e milho a perder de vista, uma das transformações menos visíveis, mas talvez mais decisivas, dos últimos anos tem sido a corrida por tecnologia e mitigação de riscos climáticos. O município se tornou um polo de agricultura irrigada no Médio Norte de Mato Grosso: atualmente, a cidade conta com 523 propriedades e 672 pivôs de irrigação instalados, cobrindo quase 90 mil hectares, o equivalente a 52% de toda a área irrigada do estado (fonte: Dinheiro Rural). Para especialistas do setor, essa infraestrutura tem sido essencial para reduzir a vulnerabilidade da produção diante de veranicos e da irregularidade das chuvas, um risco cada vez mais presente com as mudanças no regime climático.
Some-se a isso o avanço da agricultura de precisão, uso de sensores, imagens de satélite, pulverização guiada por GPS e maquinário cada vez mais automatizado, que passou a ser tratado pelos próprios produtores locais como pré-requisito, e não mais diferencial competitivo. Como resume um agricultor da região em depoimento a veículos especializados no setor, o parque de máquinas modernas de hoje permite que produtor e agrônomo acompanhem em tempo real o que acontece na lavoura, otimizando insumos e reduzindo desperdício, um salto e tanto para uma região que, há cinco décadas, era coberta por cerrado nativo e picadas de mato.

O gargalo que ainda trava o campo: a logística
Nem tudo, porém, são recordes. O maior entrave enfrentado pelos produtores de Sorriso e por boa parte do agronegócio do Centro-Oeste brasileiro é a logística de escoamento. A distância até os portos de exportação, somada à insuficiência da malha ferroviária e às condições das rodovias, encarece o frete e reduz a margem de lucro dos produtores, mesmo diante de colheitas recordes.
O prefeito de Sorriso, Alei Fernandes, já apontou publicamente a questão logística como um dos principais desafios da gestão municipal, defendendo a modernização e ampliação da malha ferroviária e a pavimentação de rodovias como prioridades para destravar o potencial da região. A pauta também mobiliza entidades de classe: segundo o Sindicato Rural do município, Sorriso é a cidade que mais arrecada no estado o Fundo de Transporte e Habitação (Fethab), tributo cobrado sobre a movimentação de grãos justamente para financiar obras de infraestrutura, a arrecadação do fundo superou R$ 310 milhões só em 2023 (fonte: Sindicato Rural de Sorriso, à Canal Rural).

O tema ganhou ainda mais visibilidade em 2026, quando Sorriso sediou, pela primeira vez em Mato Grosso, o Global Agribusiness Festival (GAFFFF), evento internacional que reuniu participantes de cinco países Brasil, Argentina, Espanha, Guatemala e Reino Unido para debater os principais entraves à competitividade do setor. Segundo a organização do evento, a expansão da produção agropecuária ocorre em meio a um cenário de mudanças nas relações comerciais, gargalos de infraestrutura, necessidade de investimentos e avanço acelerado da tecnologia (fonte: Canal Rural Mato Grosso), fatores que devem seguir no centro do debate nos próximos anos. Entre os painéis do evento estavam temas como corredores logísticos, parcerias público-privadas e o futuro do escoamento agrícola brasileiro, sinal de que o problema, longe de ser exclusivo de Sorriso, é estrutural para todo o agro nacional.

Depender menos da soja: o próximo desafio
Paradoxalmente, o maior risco para uma cidade que é sinônimo de sucesso agrícola é justamente a dependência excessiva de poucas commodities. Cientes disso, gestores públicos e lideranças do setor produtivo de Sorriso têm defendido, nos últimos anos, um movimento de diversificação da economia local, com foco em dois eixos: o fortalecimento da agricultura familiar e o incentivo à industrialização, ou seja, agregar valor ao que já é produzido em grande escala, em vez de apenas exportar a matéria-prima.
Na visão do próprio prefeito Alei Fernandes, o agronegócio de Sorriso “já se consolidou” e o momento agora é de desenvolver outras cadeias produtivas, com a industrialização como prioridade, de forma a permitir que o município arrecade mais a partir do valor agregado de sua produção e não apenas do volume bruto colhido. A ideia é reduzir a exposição da economia local às oscilações de preços internacionais de commodities como a soja, que, apesar do crescimento em volume, teve seu preço médio reduzido em mais de 4% em um intervalo de 12 meses recentes, limitando o avanço da receita mesmo em anos de safra recorde.
Uma capital do agro que também é uma cidade jovem
Por trás dos números bilionários, Sorriso também é uma cidade que cresceu rápido e segue atraindo gente de todo o Brasil. Formada majoritariamente por migrantes vindos do Sul e do Nordeste do país, a cidade hoje ostenta índices de desenvolvimento humano e educação considerados elevados para os padrões regionais, com uma rede de ensino superior que inclui faculdades e polos de universidades estaduais e federais reflexo direto da necessidade de qualificar mão de obra para um agronegócio cada vez mais dependente de tecnologia, dados e gestão.
A cultura local, moldada pela mistura de influências gaúchas, catarinenses e nordestinas, também virou parte da identidade da cidade, que organiza anualmente feiras e eventos voltados à inovação e à cultura do agro, um lembrete de que, por trás de cada saca de soja embarcada rumo aos portos, existe uma comunidade inteira que se organizou, em menos de cinquenta anos, para transformar cerrado em uma das regiões mais produtivas do planeta.
Fonte: Revista Notícia
Autor: Paulo Ricardo Kryszczun
