Chuvas e doenças afetam a qualidade dos grãos
A disponibilidade de trigo adequado à produção de farinha para panificação deve diminuir no Paraná nesta safra. O excesso de chuvas durante a colheita e a ocorrência de doenças comprometeram a qualidade dos grãos, agravando o déficit de abastecimento da indústria moageira, estimado em aproximadamente 1,7 milhão de toneladas. O Sindicato da Indústria do trigo do Paraná (Sinditrigo-PR) alerta que o cenário pode ampliar a necessidade de importações e elevar os custos de produção da farinha.
O impacto sobre a qualidade do cereal já aparece nas estimativas regionais. No Norte do Paraná, a previsão é de uma produção de aproximadamente 750 mil toneladas de trigo, das quais apenas 400 mil toneladas devem atingir a classificação Tipo 1, considerada adequada à panificação. Na safra anterior, a região colheu perto de 900 mil toneladas, com predominância de grãos dessa categoria.
A redução da quantidade de trigo com qualidade para panificação preocupa os moinhos que dependem desse tipo de matéria-prima. Segundo a presidente do Sinditrigo-PR, Paloma Venturelli, o setor ainda aguarda a consolidação dos resultados de outras regiões produtoras para avaliar a dimensão das perdas.
“Para uma indústria formada, em grande parte, por moinhos de panificação, esse volume de 400 mil toneladas é muito baixo. As regiões de Guarapuava e dos Campos Gerais ainda têm produção em apuração, e o setor aguarda os números finais para avaliar o tamanho da perda na oferta”, afirma.
Além da deterioração da qualidade, a safra apresenta redução no volume produzido. Em setembro, o Departamento de Economia Rural (Deral) revisou para baixo em 10% a estimativa de produção paranaense, que passou para 2,13 milhões de toneladas. A revisão ampliou para cerca de 1,7 milhão de toneladas a diferença entre a colheita prevista e o volume processado pela indústria estadual.
O Paraná responde por 30% da produção brasileira de farinha de trigo e possui uma demanda de moagem de aproximadamente 3,85 milhões de toneladas do cereal por safra. A produção local, portanto, já era insuficiente para atender ao processamento industrial antes mesmo do agravamento das perdas na colheita.
O boletim conjuntural do Deral, divulgado em 15 de outubro, indicou nova deterioração nas condições das lavouras que ainda aguardavam a colheita. Uma atualização da estimativa estadual está prevista para 29 de outubro, com expectativa de redução adicional da produção.
Para a indústria, a perspectiva é de maior necessidade de trigo de outras origens, especialmente da Argentina, principal fornecedora externa mencionada pelo Sinditrigo-PR. O aumento das importações também exige atenção à capacidade de recebimento nos portos e ao transporte da matéria-prima até os moinhos instalados nas diferentes regiões do Paraná.
O custo desse abastecimento é outra preocupação. A entidade avalia que a necessidade de recorrer a volumes maiores de trigo importado deve pressionar as margens das indústrias e pode resultar em repasses aos preços da farinha.
“Veja que essa piora de um cenário que já era muito ruim é realmente alarmante. Um quadro como esse coloca o Paraná numa dependência muito grande de trigo importado e aumenta a pressão sobre as margens dos moinhos, que vão precisar repassar o aumento de custos aos preços da farinha”, diz Venturelli.
A dificuldade de abastecimento também está relacionada à diminuição da área destinada ao cereal. Segundo o Sinditrigo-PR, os moinhos já trabalhavam com a possibilidade do maior déficit de trigo de sua história no Estado, mesmo antes de serem contabilizados os prejuízos provocados pelas chuvas e pelas doenças.
A preocupação se estende à próxima safra. Com a produtividade e a qualidade comprometidas, a entidade considera que os produtores poderão reduzir novamente a área plantada, aprofundando a diferença entre a oferta estadual de trigo e a demanda da indústria.
Para tentar reverter essa tendência, o Sinditrigo-PR defende políticas de incentivo ao cultivo, entre elas a criação de um Plano Safra específico para o trigo e de um programa de seguro voltado à atividade. A entidade pretende apresentar as propostas ao próximo governo, buscando ampliar a viabilidade da produção e reduzir os riscos ao abastecimento industrial.
Agrolink – Aline Merladete
Publicado em 21/10/2026 às 11:00h.
