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Bioinsumos avançam na pecuária, mas enfrentam entraves

Entre as tecnologias em desenvolvimento estão os fungos entomopatogênicos

A busca por alternativas aos antiparasitários químicos está ampliando o desenvolvimento de bioinsumos para a pecuária brasileira, especialmente no controle de carrapatos e outros parasitas que afetam os rebanhos. Apesar do potencial dessas tecnologias, a ausência de regras específicas para o registro de produtos biológicos de uso animal ainda representa um obstáculo à sua chegada ao mercado. O tema ganha relevância diante das perdas anuais estimadas em US$ 3,2 bilhões associadas ao carrapato bovino no país.

A resistência dos parasitas aos produtos convencionais é um dos fatores que impulsionam a pesquisa por novas formas de controle sanitário. O uso contínuo de antiparasitários químicos pode favorecer a seleção de populações resistentes, reduzindo a eficácia dos tratamentos e ampliando os desafios enfrentados pelos pecuaristas.

Entre as tecnologias em desenvolvimento estão os fungos entomopatogênicos, microrganismos capazes de infectar carrapatos em diferentes fases de desenvolvimento. Essas soluções podem ser aplicadas diretamente nos animais ou nas pastagens, oferecendo possibilidades de manejo biológico dos parasitas.

Outra linha de pesquisa envolve os bacteriófagos, vírus que infectam bactérias e estão sendo estudados como aditivos zootécnicos para prevenir infecções gastrointestinais em aves, suínos e bovinos. A proposta é avaliar seu potencial para reduzir ou substituir o uso de antibióticos em determinadas situações. Segundo Caio Monteiro, pesquisador da área de Parasitologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), a resistência aos produtos químicos reforça a necessidade de diversificar as ferramentas disponíveis para o manejo sanitário.

“Esse avanço da resistência tem reforçado a necessidade de novas tecnologias de controle, capazes de contribuir para o aumento da produtividade e do bem-estar animal, ao mesmo tempo em que reduzem a dependência de insumos químicos. Nesse cenário, é fundamental criar condições para que soluções alinhadas ao conceito de Saúde Única, que considera a relação entre a saúde animal, humana e ambiental, cheguem ao mercado e contribuam para um manejo mais seguro e sustentável”, afirma.

Embora utilizem uma base tecnológica semelhante à dos bioinsumos agrícolas, com microrganismos como fungos e bactérias, os produtos destinados à pecuária apresentam particularidades relacionadas à aplicação e à segurança. Enquanto os biológicos agrícolas atuam em plantas, no solo e sobre organismos que causam doenças vegetais, as soluções para uso animal podem interagir diretamente com os rebanhos ou com o ambiente em que são criados.

Essa diferença exige avaliações específicas antes da disponibilização comercial. Além dos estudos de eficácia, toxicologia e ecotoxicologia normalmente exigidos para produtos agrícolas, determinadas tecnologias destinadas à pecuária precisam passar por ensaios de segurança clínica nos animais que receberão a aplicação. Para Lucas von Zuben, CEO da Decoy, empresa do segmento de biológicos, a falta de normas específicas para essas características dificulta o desenvolvimento comercial das soluções.

“Do ponto de vista da base tecnológica, há pouca ou nenhuma diferença entre os biológicos de uso animal e os de uso agrícola. As diferenças mais relevantes estão relacionadas ao contexto de uso e às exigências regulatórias. É exatamente nesse contexto que a ausência de um marco normativo específico para uso animal impõe os maiores obstáculos ao setor”, aponta.

A regulamentação dessas tecnologias está entre os temas em discussão no processo de implementação da Lei dos Bioinsumos, nº 15.070/2024. O debate envolve a definição de critérios para registro, produção, comercialização e avaliação da segurança dos produtos destinados ao controle de parasitas na pecuária.

As discussões têm como referência uma minuta de decreto encaminhada em dezembro de 2025, por meio do Ofício nº 440/2025/DSV/SDA/MAPA. Entre os pontos em análise está a construção de normas que considerem as diferenças entre os bioinsumos agrícolas e aqueles utilizados diretamente nos animais.

A Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPII Bio), que participa das discussões sobre o marco regulatório, defende a definição de exigências proporcionais aos riscos de cada tecnologia. A entidade ampliou sua atuação para incluir empresas que desenvolvem soluções biológicas destinadas à pecuária, com atenção especial ao controle de parasitas externos.

Entre as propostas apresentadas pela associação estão a definição de metodologias analíticas para avaliação dos produtos, a adequação dos requisitos de registro de estabelecimentos e a criação de uma lista de ativos biológicos autorizados para uso pecuário, com identificação em nível de cepa.

Também estão em discussão regras para informações apresentadas em rótulos e bulas. A proposta é permitir que produtos com ação comprovada sobre parasitas e invertebrados informem esses efeitos, mantendo restrições a alegações terapêuticas ou curativas reservadas aos medicamentos veterinários.

De acordo com Larissa Bonotto, diretora de operações da ANPII Bio, a definição de regras claras é necessária para dar previsibilidade aos investimentos e permitir que as tecnologias avancem da pesquisa para a aplicação comercial. “O Brasil reúne escala produtiva, capacidade científica e um dos maiores mercados pecuários do mundo, mas transformar esse potencial em avanço concreto depende de um ambiente regulatório claro, que traga previsibilidade e destrave a inovação. Sem isso, o investimento desacelera e o país pode perder competitividade em uma frente estratégica para a produção animal”, explica.

Além do controle de parasitas, o desenvolvimento de produtos biológicos está relacionado à preocupação com resíduos químicos em alimentos de origem animal e com os efeitos do uso de determinadas substâncias sobre outros organismos. As tecnologias são investigadas como ferramentas para reduzir a dependência desses insumos, embora suas aplicações dependam de comprovação de eficácia e segurança.

O tema também está relacionado às exigências sanitárias do comércio internacional, especialmente quanto ao uso e à rastreabilidade de antimicrobianos na produção animal. O material divulgado pela ANPII Bio menciona uma suspensão temporária da entrada de produtos brasileiros de proteína animal na União Europeia, no início de setembro, associada às regras europeias para essas substâncias.

Para Luciano Lopes Queiroz, CEO da Karaja Biosciences, os biológicos podem ampliar as alternativas de manejo sanitário e contribuir para diminuir riscos relacionados à resistência de microrganismos. “O uso de biológicos na produção animal possui enorme potencial, principalmente onde os problemas não têm solução eficiente disponível. A aplicação dessas tecnologias poderá reduzir o uso de produtos químicos e diminuir o risco de que organismos resistentes, como bactérias multirresistentes, sejam transmitidos para humanos via alimentação ou manejo”, ressalta.

Agrolink – Aline Merladete
Publicado em 21/10/2026 às 14:25h.

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