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El Niño 2026/2027 se forma no Pacífico: produtor do Sul precisa começar a se preparar agora

Risco para a agricultura do Sul no ciclo 2026/2027 não é estiagem, é excesso de água

O El Niño está se formando no Pacífico equatorial, e isso já não é mais uma possibilidade distante. A evidência mais clara não está na temperatura da superfície do mar, e sim no que está abaixo. A camada subsuperficial do oceano vem aquecendo de forma consistente há meses, e esse calor é o sinal antecipado mais confiável que existe para indicar que a fase quente do El Niño vai se consolidar. Esse calor vai emergir nas próximas semanas, alterar o padrão climático global e, no Sul do Brasil, abrir um ciclo dominado por excesso hídrico.

Importante lembrar que: o fenômeno não chega da noite para o dia.  Ainda atravessamos um período de neutralidade, com transição gradual. 

Os primeiros reflexos podem começar a aparecer no decorrer do inverno, mas o estabelecimento operacional pleno do El Niño deve ocorrer entre julho e setembro de 2026. A intensidade final ainda não é certa,e a situação atual é de que os modelos têm mais dificuldade de acertar a magnitude do evento. Há quem já fale em “super El Niño”. Esse cenário não está descartado, mas não é o mais provável segundo os centros oficiais até aqui.

Mesmo com essa incerteza, a recomendação prática não muda: o produtor deve considerar o período com chuva excessiva no Sul como cenário central de planejamento para 2026/2027. Mesmo que o evento não venha com intensidade máxima, a preparação não vira desperdício — vira margem de segurança.

O que dizem os centros oficiais

Os números das principais instituições climáticas do mundo convergem para um quadro consistente. O Climate Prediction Center, da NOAA, atualizou em abril a probabilidade de El Niño para 61% no trimestre maio-julho, 79% em junho-agosto e 92% em setembro-novembro. Para o pico do fim de 2026 e início de 2027, a soma das categorias “forte” e “muito forte” já alcança cerca de 50%.

O International Research Institute (IRI), da Universidade de Columbia, é ainda mais agressivo em seu produto objetivo de 20 de abril: 88% de probabilidade de El Niño em maio-julho, 94% em julho-setembro, com média dos modelos dinâmicos atingindo 1,95 °C em SON e 2,06 °C em OND no índice Niño 3.4 — patamar que, se confirmado, classificaria o evento como muito forte.

O ECMWF e o Met Office britânico apontam na mesma direção. O Met Office, em comunicado de meados de abril, disse que o evento poderá ficar “na parte alta do histórico recente, possivelmente o mais forte deste século”, embora não adote o rótulo de “super El Niño”. A Organização Meteorológica Mundial confirmou em sua atualização sazonal que praticamente todos os modelos apontam para o desenvolvimento do fenômeno a partir de meados de 2026.

No Brasil, INMET, EPAGRI/CIRAM e CEMADEN já incorporam essa leitura aos seus boletins. A EPAGRI/CIRAM publicou no fim de abril que a probabilidade de início entre julho e agosto era de 80%, com 25% de chance de evento muito forte. O CEMADEN, em nota técnica de fim de março, foi mais conservador — mas a evolução das previsões nas semanas seguintes mostrou que esse limite tende a ser revisado nos próximos boletins. É um caso em que as próprias instituições estão atualizando a leitura em ritmo acelerado.

Os dois lados da chuva acima da média

O sinal climático para a primavera 2026 e o verão 2026/2027 é de chuva acima da média no Sul, com sinal mais robusto em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No Paraná, o padrão é mais variável, com gradiente latitudinal e maior peso de outros moduladores, como o gradiente do Atlântico Tropical.

E aqui há um ponto que o produtor precisa entender: chuva acima da média pode chegar de duas formas com efeitos bem distintos no campo. Pode vir como chuva intensa em períodos curtos — eventos de alta intensidade horária, vendavais e granizo, associados a complexos convectivos. E pode vir como chuva persistente — vários dias ou semanas com sistemas estacionários, sem janela operacional para semeadura, aplicação ou colheita. Os dois padrões são possíveis no mesmo ciclo, e cada um exige resposta diferente.

A janela de risco por cultura

A primavera 2026 é a fase mais sensível. O trigo entra em florescimento, espigamento e maturação justamente quando o sinal de chuva se intensifica — repetindo o padrão das safras 2009 e 2023, que combinaram quebras volumétricas com perda de qualidade panificável e epidemias de giberela e brusone. O arroz irrigado enfrenta atrasos de implantação e risco de enchente nas várzeas. A semeadura de soja e milho de primeira safra pode encontrar janelas curtas e solos saturados, com risco de falhas de estande por hipóxia radicular.

No verão 2026/2027, em áreas bem drenadas, soja e milho podem se beneficiar da maior disponibilidade hídrica e do menor risco de estiagem — esse é o lado bom do El Niño para culturas estivais. Mas em terras baixas e áreas mal drenadas, o saldo pode virar negativo: encharcamento, lixiviação de nitrogênio, pressão fitossanitária elevada, colheita atrasada e perda de qualidade de grão.

A preparação que precisa começar agora

A leitura técnica converge para cinco frentes de ação imediata:

Drenagem e conservação de solo: revisar terraços, canais, drenos superficiais e cobertura vegetal antes da primavera. Em terras baixas, dimensionar drenagem para excesso hídrico, não para déficit.

Adesão estrita ao ZARC: escalonar semeadura dentro da janela oficial, sem concentrar áreas mais baixas no início da operação. Diversificar cultivares e datas para dispersar o risco.

Vigilância fitossanitária reforçada: giberela e brusone no trigo, ferrugem asiática na soja são os principais alvos. O Vazio Sanitário precisa ser cumprido com rigor, e o monitoramento de tigueras (soja voluntária) na entressafra deve ser intensificado para evitar a “ponte verde” que sustenta o inóculo de ferrugem.

Capacidade de secagem e armazenagem: colheita em condição úmida vai exigir mais energia para secagem e atenção redobrada a micotoxinas em grãos com alta umidade residual.

Proteção financeira: seguro rural, Proagro e contratos de venda antecipada compatíveis com a expectativa real de produção sob estresse climático.

A mensagem central

O risco relevante para a agricultura do Sul no ciclo 2026/2027 não é estiagem — é excesso de água. Tratar a chuva acima da média como base operacional de planejamento é o que melhor protege a operação em qualquer desfecho. Se o evento vier menos forte que o esperado, o produtor preparado terá margem de sobra. Se vier no patamar mais severo, a preparação será o que separa quem absorveu o impacto de quem foi colhido por ele.
A leitura técnica vai continuar sendo atualizada nas próximas semanas. Mas a base para começar a agir já está dada.

Agrolink – Seane Lennon

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