Época da inauguração da ponte sobre o Rio Vermelho, 1954 (colorização: Leandro Luciano – Luci Lea)
O dia 10 de agosto é um marco significativo na história de Rondonópolis: é o aniversário de 110 anos de FUNDAÇÃO de nossa cidade. Agora, uma coisa é certa, não se deve confundir essa data com 10 de dezembro, quando os rondonopolitanos celebram a emancipação político-administrativa do município. Ou seja, uma coisa é a Fundação outra coisa é a Emancipação. A questão é: – por que não se celebra as duas datas?
Então, eu proponho uma reflexão sobre a importância da preservação e das raízes que, desde o início, se entrelaçam aos fios do arranjo urbano, aos fios do tecido social, no viés da memória de nossa Rondonópolis – nessa proposta se conectam tanto os dados de fundação ocorridos em 10 de agosto de 1915, quanto o processo de emancipação do município, que culminou na data de 10 de dezembro de 1953.

A fundação de Rondonópolis ocorreu em 10 de agosto de 1915, com base em um documento de doação de 2000 hectares (Lei 395), efetuado pelo então presidente do Estado de Mato Grosso, Joaquim da Costa Marques, à Povoação do Rio Vermelho. Esse documento é uma espécie de Carteira de Identidade Oficial do povoado. Esse decreto marca oficialmente a existência do povoado (a futura cidade de Rondonópolis), cuja data de fundação (10 de agosto de 1915) foi regulamentada pela Lei Municipal 2.777, de 22 de outubro de 1997.
Já a emancipação política de Rondonópolis ocorreu em 10 de dezembro de 1953, com a assinatura da Lei 666. A partir de então, Rondonópolis se tornou um município independente, rompendo os laços com Poxoréu.
O INÍCIO
A história de Rondonópolis data de milênios, comprovada por objetos e inscrições rupestres encontrados em inúmeros sítios arqueológicos da região; há duzentos anos os índios bororo marcam presença nas proximidades do rio Vermelho, sem contar o número de mineradores e faiscadores que vinham de longe para tentar a sorte e conseguir fortuna.
A Comissão das Linhas Telegráficas também esteve por aqui em 1907/1909, cujas expedições, sob o comando do então primeiro-tenente Cândido Rondon, determinavam o traçado da linha telegráfica para interligar o Estado de Mato Grosso e Amazonas ao resto do país – fruto dessa investida, em 1922, é inaugurado o posto telegráfico às margens do rio Pogubo.

POVOAMENTO
A partir de 1902, inicia-se a história da “Povoação do Rio Vermelho” (antiga denominação de Rondonópolis), com a fixação de famílias procedentes de Goiás, Cuiabá e outras regiões do Estado, junto ao rio Vermelho e ao ribeirão Arareau, sob a liderança de José Rodrigues dos Santos e de Jerônimo Lopes Esteves. Em 1915, havia cerca de setenta famílias na localidade e estas viviam com certa organização econômica, social, política e tinham preocupação com as primeiras letras.
Os dados desse período são computados somente a partir de documentos oficiosos encontrados com algumas famílias: como cartas, caderneta de compras, certidões, fotografias, relatos de vida, etc. Contudo, não foi encontrada documentação oficial relacionada à fundação do povoado.
Somente em 1915, foi que o Estado se manifestou em relação à presença da “Povoação do Rio Vermelho” quando o presidente de Estado do Mato Grosso, Joaquim da Costa Marques, firma a doação de “2.000 hectares para o rocio da Povoação do rio Vermelho”. Baseado nesse documento (Lei 395) é que o povoado passou a existir oficialmente, quando recebeu a sua Carteira de Identidade.
MUDANÇA DE NOME
Em 1918, o tenente Otávio Pitaluga conclui o projeto de medição, alinhamento e estética da localidade, projeto que em 1948 foi aproveitado pelo engenheiro Domingos de Lima para edificar o traçado do atual quadrilátero central.
Enquanto deputado, Pitaluga foi o responsável pela alteração de nome do povoado para Rondonópolis, em 1918 – com certeza, ele tinha a finalidade explícita de homenagear o General Rondon e conseguir conquistas políticas para a região – lugar que, não por acaso, era o seu reduto eleitoral. Em razão dessa homenagem, Rondon passa a ser considerado o patrono de Rondonópolis, título que muito o envaidecia.

CRESCIMENTO NÃO LINEAR
O povoamento de Rondonópolis tem características diferentes da história das demais cidades de Mato Grosso, sua trajetória não foi linear. O povoamento local iniciou-se em 1902 e apresentou um crescimento até 1920, quando passou a ser distrito de Santo Antônio do Leverger, através da Resolução Nº 814 e passou por melhoramentos pontuais, como a criação da balsa (1926), que facilitava transitar às margens do rio Vermelho; houve também a instalação do posto telegráfico (1922).
Entretanto, de 1920 a 1930 ocorreram acontecimentos inesperados no local, como a mudança de líderes goianos (que não concordaram com a mudança de nome do povoado), os problemas ligados a enchentes, o surto de epidemias e doenças e a descoberta e exploração dos garimpos de Poxoréu. Disso resultou o enfraquecimento e o esvaziamento de Rondonópolis.
Nessas duas décadas, enquanto o distrito de Rondonópolis ficava quase que completamente abandonado, Poxoréu crescia com a exploração de diamante e conseguia, em 1938, a sua emancipação política. Diante da proximidade, Rondonópolis foi reconhecido como distrito de Poxoréu, através do Decreto-Lei nº 218 de 26 de outubro de 1938, mas continuava Comarca de Cuiabá.

A partir de 1947, há o retorno de crescimento de Rondonópolis, à medida que o local é inserido no contexto capitalista de produção como fronteira agrícola mato-grossense, resultado da política do sistema de colônias, implantado pelo Governo de Arnaldo Estevão de Figueiredo.
Desse contexto de expansão, resulta a emancipação político-administrativa de Rondonópolis e o significativo aumento econômico e demográfico local. Nos anos de 1980 e seguintes, o município é projetado como sendo o mais importante do interior do Estado de Mato Grosso em economia, e destaque como polo de 22 cidades da região; hoje é também o segundo município em demografia – na casa dos 250.000 habitantes.

HERÓIS ANÔNIMOS
Ao longo da história, Rondonópolis viu homens e mulheres audazes, esperançosos por encontrar um eldorado, deslocarem-se de seus rincões e aportarem pelas bandas do rio Vermelho, em busca de novas oportunidades de trabalho e de realização; enfim, em busca por melhores condições de vida. São essas pessoas, os heróis anônimos que representam grande parte da força de construção e da história de Rondonópolis: migrantes mato-grossenses, nordestinos (da Bahia, de Pernambuco, do Ceará, do Maranhão), paulistas, mineiros, goianos, paranaenses, catarinenses, gaúchos ao lado de estrangeiros libaneses, árabes, japoneses, espanhóis, sul-americanos e outros – hoje já abriga descendentes até de quarta geração.

VÍNCULO COM A TERRA
Contudo, infelizmente, com o passar do tempo, muitos dos migrantes que ajudaram a construir o município partiram, levando consigo histórias e experiências que não podem mais ser recuperadas. Além disso, os cuidados com os monumentos históricos têm sido negligenciados e, em alguns casos, até demolidos, refletindo a falta de respeito e de cuidado pelos bens e patrimônio local. O certo é que, as “pedras” (ou “monumentos” históricos representativos de uma época) tem desaparecido, às vezes, mesmo antes das pessoas.
Um exemplo emblemático se destaca: o prédio antigo do Correio, onde Marechal Cândido Rondon se hospedava em suas passagens por Rondonópolis.
Os memorialistas reivindicavam que a construção do Correio fosse tombada pela municipalidade; no caso, eles tiveram o seu pedido prontamente atendido, só que em uma execução ao “pé da letra”, literalmente tombado, o prédio foi colocado ao chão, em meados da década de 1980 – este é o reflexo do descaso de muitos habitantes e políticos de Rondonópolis que vivem aqui, mas que não mantêm um mínimo vínculo com a terra onde habitam.

CELEBRAR RONDONÓPOLIS
Há a necessidade de se relembrar e estudar o passado da história do município, não apenas como um registro de eventos, mas, sobretudo para assegurar que a memória e as tradições sejam passadas adiante, para que a cidade continue a desenvolver-se com uma conexão forte e duradoura em suas raízes.
Assim, celebrar Rondonópolis, acima de tudo, é um ato de respeito pela trajetória de sua população e um compromisso com a preservação do que nos torna únicos. Parabéns, Rondonópolis, pelos seus 110 anos de FUNDAÇÃO.
(*) Luci Léa Lopes Martins Tesoro, doutora em História Social pela USP, Autora de “Rondonópolis-MT: um entroncamento de mão única”. – lllmt@terra.com.br
Fonte JORNAL A TRIBUNA DE RONDONOPOLIS-MT
