Laisa Stofel/ Gazeta Digital
A candidata à Presidência da República pelo partido Unidade Popular, Samara Martins, defendeu um programa focado na reforma agrária, no aumento substancial de investimentos sociais e na superação do sistema capitalista durante sua passagem por Mato Grosso. A presidenciável, que integra uma chapa 100% feminina ao lado de Raquel Brício (UP), abordou a baixa representatividade de mulheres nos espaços de decisão e apontou caminhos para enfrentar a exploração econômica e a desigualdade no país.
Ao discutir a composição da chapa e a sub-representação das mulheres nos cargos eletivos, Samara enfatizou o recorte de classe e raça como eixos centrais de sua atuação política.
“Infelizmente, num país em que a maioria das pessoas são mulheres e são negras, a nossa representação na política é muito pequena e nós precisamos que as mulheres trabalhadoras estejam nos espaços de poder e de decisão, para poder definir qual orçamento vai ser destinado para o nosso povo, para fazer enfrentamento aos que lucram com a exploração dos nossos trabalhadores, que são principalmente as mulheres, recebendo menores salários, as mulheres e as mulheres negras”, afirmou a candidata.
Questionada sobre como pretende dialogar com os eleitores e produtores rurais em um estado onde a presença do agronegócio é marcante, Samara fez uma clara distinção entre os grandes empresários do setor e os pequenos agricultores, defendendo o fortalecimento da produção familiar e a soberania alimentar.
“A diferença é que o agronegócio, que são os grandes empresários da agricultura, esses é que ganham muito dinheiro. A parte que a agricultura familiar, a agricultura camponesa, acabam recebendo muito subsídio do governo e é justamente quem garante a alimentação do nosso povo. Porque aqui no Mato Grosso, que é um dos maiores produtores de carne, as pessoas ainda vivem na fila do osso, não têm condição de comer carne, então é uma luta de enfrentamento entre as classes. […] Nós não queremos continuar sendo um mero exportador de matéria-prima, nós queremos que o nosso povo coma”, provocou.
Diante do cenário político nacional marcado por uma forte polarização, a candidata apresentou a legenda como uma via alternativa e voltada estritamente aos interesses dos trabalhadores.
“A Unidade Popular é a alternativa para o povo trabalhador, porque, infelizmente, todos os governos até agora, sejam eles de direita ou de esquerda, fizeram a mesma lógica econômica de priorizar os mais ricos, de priorizar os bancos, de priorizar os grandes empresários, de priorizar o agronegócio”, declarou Samara.
A candidata também pontuou as assimetrias no processo eleitoral provocadas pelas regras de acesso a recursos públicos.
“Há uma desigualdade no processo eleitoral, que não permite que nós apresentemos os nossos programas, as nossas propostas no mesmo pé de igualdade desses partidos já tradicionais”, denunciou.
A agenda da candidata no estado incluiu também uma participação ao vivo no programa Jornal do Meio Dia, exibido na quinta-feira (6). Na ocasião, Samara voltou a criticar a falta de espaço e de estrutura para partidos mais jovens no sistema democrático atual.
“Se eu sou candidata à presidência, como todos os outros, deveria ter o mesmo tempo de rádio, de TV e de recursos financeiros”, argumentou a candidata.
A presidenciável detalhou o programa ideológico da legenda, sustentando a estatização dos meios de produção como caminho para garantir direitos sociais básicos.
“Nós defendemos que haja uma sociedade em que não haja exploração, e que os meios de produção, que é o que a gente diz, as terras, as fábricas, elas sejam também distribuídas com as outras pessoas. E o que é público, seja de todo mundo e não tenha uma apropriação privada desses meios de produção”, explicou ao ser questionada sobre os pilares do plano de governo da UP.
A pauta da segurança pública também esteve no centro do debate, Samara defendeu a mudança na abordagem do Estado, priorizando o combate à desigualdade social e o combate direcionado ao financiamento do crime organizado, em vez da repressão generalizada em periferias.
“Discutir segurança pública, necessariamente, tem que discutir áreas sociais. É o acesso ao emprego, é acesso à moradia, é acesso à saúde, é acesso à alimentação. Porque, se você não acaba com as desigualdades sociais, você enxuga um gelo aqui em cima e a gente não resolve. […] Há necessidade de endurecer a repressão à violência contra as mulheres, desde a misoginia, não só no feminicídio”, pontuou.
Encerrando a sabatina, ao ser questionada sobre a viabilidade de dobrar o valor do salário mínimo, Samara rebateu a ideia de inviabilidade econômica, citando regras fiscais recentes.
“É possível aumentar em 100% o salário mínimo se a gente tivesse mantido o aumento real no início dos anos 2000. Nós teríamos, agora, um salário de cerca de R$ 3.200, mas em 2016 se criaram um teto de gastos, que agora se chama Arcabouço Fiscal, que tira e limita os recursos da saúde, da educação, das áreas sociais e limita o aumento”, concluiu, reafirmando que a candidatura buscará vaga no segundo turno das eleições presidenciais e desviando da polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
