Psiquiatra Alessandra Diehl adverte que não existe nível seguro de ingestão e critica permissividade dos pais. Dados do Lenad III mostram que consumo pesado entre adolescentes saltou para 34,4%
As celebrações de fim de ano trazem consigo um aumento significativo no consumo de bebidas alcoólicas, impulsionado pelas confraternizações corporativas e reuniões familiares. No entanto, especialistas alertam que a cultura de excessos típica desta época potencializa riscos graves à saúde física e mental, além de deteriorar relações sociais.
Alessandra Diehl, psiquiatra e membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abad), é enfática ao destacar que, cientificamente, não existe consumo seguro de álcool.
A médica ressalta que documentos recentes, ratificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), reforçam que qualquer quantidade ingerida pode trazer prejuízos ao organismo.
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Acidentes e Negligência Infantil
O impacto imediato do abuso de álcool nas festas reflete-se nos serviços de emergência. Segundo a especialista, o descontrole motor e cognitivo gera uma cadeia de eventos perigosos.
“Entre os principais problemas observados nesse período estão quedas, intoxicações e a redução da supervisão de crianças em ambientes com adultos alcoolizados”, pontua Diehl.
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A negligência decorrente da embriaguez dos responsáveis cria um cenário de risco doméstico para os menores, muitas vezes com consequências graves.
“É muito comum que nessa época os pronto-atendimentos pediátricos recebam casos de crianças que ingerem bebida alcoólica porque os adultos não supervisionam adequadamente”, complementa a psiquiatra.
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Comportamento e Saúde Mental
Além dos acidentes físicos, a alteração de comportamento é um fator crítico. A mistura de álcool com medicamentos ou simplesmente o excesso da substância pode desencadear episódios de violência.
“A pessoa vai perdendo o juízo crítico e acaba se colocando em situações de risco, como dirigir intoxicado, além do aumento da agressividade e de conflitos familiares”, explica Alessandra.
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A saúde mental também é afetada. Muitas pessoas utilizam a bebida como uma válvula de escape para lidar com sentimentos de tristeza, ansiedade ou frustrações, que tendem a aflorar no encerramento de ciclos anuais.
“O álcool acaba sendo usado como uma anestesia para lidar com esse mal-estar, mas isso pode piorar sintomas de ansiedade e depressão já existentes”, alerta.
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Para quem luta contra a dependência química, o fim de ano é um período de vulnerabilidade extrema, onde a “glamourização” do brinde pode ser fatal para a recuperação.
“É um período em que a bebida é ofertada grandemente, e a nossa cultura faz uma glamourização muito forte do álcool, o que aumenta a vulnerabilidade de quem está em recuperação”, diz a médica, que reforça:
“A bebida não pode ser a protagonista das festas. Quando a gente glamouriza o álcool, isso pode ser um gatilho para pessoas emocionalmente vulneráveis”.
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Alerta Vermelho: Jovens bebendo mais
Um dos pontos de maior preocupação trazidos pela especialista baseia-se em dados recentes. Em setembro de 2025, foi divulgado o 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em parceria com a Unifesp.
O estudo revelou uma inversão de tendências preocupante: enquanto os adultos estão bebendo menos, os adolescentes estão bebendo mais e de forma mais pesada.
- Adultos: A proporção de quem bebe regularmente caiu de 47,7% (2012) para 42,5% (2023).
- Adolescentes: O consumo pesado (60g ou mais em uma ocasião) aumentou entre os menores de idade, subindo de 28,8% (2012) para 34,4% (2023).
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Diante desse cenário, Alessandra Diehl critica duramente a postura de famílias que permitem o consumo dentro de casa sob a justificativa de segurança.
“Não existe ‘beber com moderação’ para adolescentes. Eles não podem beber, por lei, e têm um cérebro ainda em desenvolvimento, o que pode ser impactado pelo consumo de álcool”, afirma.
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A psiquiatra encerra com uma orientação direta aos pais sobre a necessidade de limites claros.
“Dizer que é melhor o adolescente beber sob supervisão é uma fala extremamente permissiva e equivocada.
A prevenção passa por uma presença familiar mais ativa e por mensagens claras de que o álcool não deve ocupar o centro das celebrações.
É possível dizer: aqui em casa a bebida não é o principal, e você, como adolescente, não vai beber”, conclui.
