A perda de espaço está ligada à busca por conveniência
A cadeia brasileira do arroz vive uma mudança de foco: o principal desafio já não está apenas em produzir mais, mas em recuperar espaço no consumo das famílias. A avaliação é de Sergio Cardoso, diretor de operações da Itaobi Representações, que aponta mudanças estruturais nos hábitos alimentares.
Durante décadas, o setor concentrou investimentos em genética, irrigação e produtividade, levando o Brasil a figurar entre os produtores mais eficientes do mundo. Ao mesmo tempo, o consumo por habitante recuou. Em 1985, cada brasileiro consumia cerca de 40 quilos de arroz beneficiado por ano. O volume chegou ao pico de 48,7 quilos em 1997, mas caiu para aproximadamente 28,5 quilos em 2024, retração de 41%.
No mesmo período, a população passou de 136 milhões para mais de 212 milhões de habitantes. Apesar do aumento de quase 80 milhões de pessoas, o mercado de arroz praticamente não avançou, indicando que o problema não está apenas nos preços ou no trigo.
A perda de espaço está ligada à busca por conveniência, com maior presença de refeições prontas, delivery, lanches, sanduíches e aplicativos de entrega. Famílias menores e rotinas aceleradas também reduzem a frequência de preparo do alimento em casa. Por isso, mesmo quando os preços caem, a reação do consumo ocorre menos do que o esperado.
Outros fatores podem reforçar essa tendência, como o envelhecimento da população, que reduz o consumo calórico médio, e a expansão dos medicamentos GLP-1, associados à diminuição do apetite e do tamanho das refeições. Nesse cenário, o setor precisará investir em produtos prontos, novas embalagens, comunicação, inovação e agregação de valor. Se o consumo continuar recuando enquanto a capacidade industrial cresce, o risco será de excesso de estrutura para um mercado em redução.
Agrolink – Leonardo Gottems
Publicado em 23/06/2026 às 11:09h.
