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Sem novas moléculas: os riscos da falta de inovação no campo

O que acontece quando novas moléculas deixam de ser aprovadas?

O que acontece quando novas moléculas deixam de ser aprovadas ou chegam tarde demais aos produtores?

A resposta é clara — e preocupante: sem inovação, o controle se torna menos eficaz, os custos aumentam e o impacto ambiental cresce.

Nas últimas décadas, a pesquisa para desenvolvimento de novos defensivos agrícolas evoluiu significativamente. As novas moléculas químicas são mais seletivas, eficientes e seguras, e o avanço no portfólio de bioinsumos reforça ainda mais o caminho rumo à sustentabilidade da agricultura. No entanto, o ritmo de aprovação e disponibilização de novas tecnologias segue lento — e isso coloca em risco o acesso do produtor a ferramentas essenciais e compromete as boas práticas de manejo.

Sem novos ingredientes ativos, o Manejo Integrado de Pragas (MIP) — que combina diferentes tecnologias e estratégias — perde parte do seu potencial. Afinal, é a diversidade de ferramentas que permite evitar a resistência, reduzir impactos e manter a produtividade das lavouras.

 

Resistência de pragas: o preço da estagnação química

As pragas evoluem. E quando as tecnologias permanecem as mesmas por tempo demais, a resistência é apenas uma questão de tempo.

Como destacam Garud et al. (2024), a falta de novas moléculas leva à dependência de ativos antigos, que acabam sendo usados de forma repetitiva. Isso acelera a seleção de populações resistentes e provoca falhas no controle — um ciclo perigoso que afeta produtividade e aumenta custos.

Esse ciclo pode ser evitado com a incorporação contínua de novas tecnologias no campo. Segundo Umetsu e Shirai (2020), mais de 105 pesticidas foram lançados ou estavam em desenvolvimento apenas na última década no mundo — incluindo fungicidas, inseticidas e herbicidas. A maioria dessas moléculas foi projetada com alto potencial de seletividade e menor persistência ambiental, atendendo às novas demandas de segurança e sustentabilidade.

Essa tendencia é mostrada por Lazarevic-Pašti et al. (2025), em seu trabalho, onde destaca que o EIQ (Environmental Impact Quotient), índice que mede o impacto ambiental e à saúde humana dos defensivos, vem caindo de forma consistente nas últimas duas décadas.

Ou seja, as moléculas mais recentes são menos tóxicas, mais específicas e com menor persistência ambiental, reduzindo riscos para polinizadores, inimigos naturais e microrganismos do solo.

Além disso, novas formulações e sistemas de liberação controlada permitem maior eficiência com doses menores, diminuindo o volume de ingrediente ativo aplicado por hectare. Isso se traduz em menor impacto e maior custo-benefício.

O resultado é uma agricultura que não apenas produz mais, mas produz melhor — com segurança, rastreabilidade e responsabilidade ambiental.

Sem inovação com o desenvolvimento de novas ferramentas, o sistema produtivo perde força. Não é apenas um problema agronômico, mas também econômico e ambiental.

O resultado é paradoxal — a ausência de novas tecnologias leva justamente ao aumento dos impactos que se busca evitar.

Quando a inovação não chega: o impacto da lentidão regulatória

Desenvolver um novo ingrediente ativo químico é um processo demorado, complexo e caro.  Segundo levantamento da CropLife International (2024), o custo médio global para levar uma molécula do laboratório até o mercado chega a US$ 301 milhões, somando as etapas de pesquisa, desenvolvimento e registro.

O caminho também ficou mais demorado: o tempo médio de pesquisa e desenvolvimento passou de 11 para cerca de 12 anos, refletindo a maior complexidade dos requisitos regulatórios e o volume crescente de dados exigidos para comprovar eficácia, seletividade e segurança.

Após estes 12 anos de P&D, há o tempo de análise técnico-regulatória, o que faz com que este prazo se estender ainda mais para a chegada da tecnologia no campo.

Das muitas moléculas estudadas, apenas uma em cada 140 mil chega ao mercado. Agora, imagine somar a isso processos regulatórios lentos e burocráticos. O resultado é que, muitas vezes, tecnologias seguras e eficazes — já disponíveis em outros países — demoram anos para chegar ao produtor brasileiro.

Essa defasagem cria um cenário de desvantagem competitiva e aumenta a pressão sobre as moléculas antigas, que seguem sendo utilizadas por falta de alternativas.

Em um mercado global que evolui rapidamente, não aprovar ou demorar para aprovar novas tecnologias é também uma forma de retroceder.

Regulação com rigor e ciência: o equilíbrio que o agro precisa

No Brasil, o uso de defensivos químicos é rigidamente regulamentado, com uma das legislações mais completas e exigentes do mundo.

A Lei nº 14.785/2023 estabelece normas que abrangem todas as etapas do ciclo de vida dos produtos, desde a pesquisa e desenvolvimento, passando pela produção, comercialização, transporte e aplicação, até o descarte e a destinação final das embalagens.

Esse arcabouço garante que nenhum produto chegue ao campo sem antes passar por três avaliações independentes, conduzidas por órgãos federais com diferentes competências:

•    o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), responsável pela eficácia agronômica;
•    o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que analisa os impactos ambientais;
•    e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que avalia os riscos à saúde humana.

Os critérios utilizados por essas instituições estão alinhados às principais agências internacionais, como a EPA (EUA) e a EFSA (União Europeia), reforçando o compromisso do Brasil com o Código Internacional de Conduta para o Gerenciamento de Pesticidas, da FAO.

Manter o rigor científico é essencial — mas é igualmente importante que o processo não se torne uma barreira à inovação. A lentidão nos registros pode atrasar a chegada de novos produtos, ampliar a dependência de moléculas antigas e gerar, portanto, ineficácia de controle de pragas no campo.

No fim das contas, a inovação só se concretiza quando governo, academia e setor produtivo trabalham juntos.

É dessa colaboração que nasce o equilíbrio entre rigor, agilidade e sustentabilidade — e é ela que garante que o Brasil continue sendo uma referência mundial em produtividade e manejo responsável.

Inovação é só o começo: o papel do uso correto

Por mais modernas que sejam as moléculas, o sucesso delas depende do uso responsável e técnico.

A rotação de modos de ação, a dose correta e o momento ideal de aplicação são estratégias essenciais para prolongar a vida útil das moléculas e evitar novas situações de resistência e ressurgência de pragas.

Sem isso, até mesmo as tecnologias mais inovadoras podem perder eficácia rapidamente. O uso inadequado — seja por repetição, subdosagem ou pulverizações excessivas — aumenta a pressão seletiva sobre as populações de pragas, comprometendo o manejo integrado e elevando custos.

O MIP é a base desse equilíbrio. Ele integra bioinsumos, químicos, manejo genético e cultural para garantir produtividade sustentável, usando cada ferramenta no momento certo e da maneira correta.

Inovação também é manejo

Falar em novas moléculas não é apenas discutir produtos: é falar em ciência aplicada ao manejo. Cada ingrediente ativo aprovado é o resultado de uma longa jornada de pesquisa, testes e validações que têm como objetivo tornar o campo mais produtivo, seguro e sustentável.

Com novas tecnologias, abrimos espaço para uma agricultura que usa menos, mas produz mais; que protege o solo, a água e a biodiversidade; e que continua a alimentar o mundo com eficiência e responsabilidade.

Como costumo dizer: não existe milagre, existe manejo — e dentro desse manejo, a inovação é a engrenagem que mantém o agro em movimento.

Texto desenvolvido por:

Dra. Gabriela Vieira: Engenheira agrônoma, bióloga, doutora em fitossanidade e é especialista em Manejo Integrado de Pragas (MIP) e produtos biológicos. Trabalha como consultora, palestrante e treina profissionais do agro no Brasil todo.
Descascando a Ciência: Empresa de comunicação que traduz a ciência em conteúdos estratégicos e acessíveis. Atuamos com planejamento, produção e divulgação de pesquisas e tecnologias para aproximar ciência, sociedade e mercado.

Por Aline Merladete

28/11/2025 14h53 · Fonte: Agrolink & Assessoria

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