Tarifa de 25% preocupa setor sucroenergético
A proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros pode trazer impactos para o setor sucroenergético e acelerar mudanças no mercado global de etanol. A avaliação é da especialista Letícia Corrêa, da StoneX, que analisou os possíveis reflexos da medida para as exportações brasileiras e para o equilíbrio entre oferta e demanda do biocombustível.
O tema ganha relevância em um momento em que os Estados Unidos discutem a ampliação permanente da mistura de etanol na gasolina por meio do E15. Segundo a análise, a iniciativa tende a aumentar o consumo interno norte-americano e reduzir o excedente exportável do país nos próximos anos.
De acordo com a StoneX, esse movimento pode abrir oportunidades para outros fornecedores globais, incluindo o Brasil, ao mesmo tempo em que cria incertezas sobre o acesso do etanol brasileiro ao mercado norte-americano. O cenário ocorre em meio ao início da safra 2026/27, que tem perspectiva de produção recorde e maior necessidade de escoamento externo.
A proposta tarifária surgiu após a conclusão, em 1º de junho de 2026, da investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), aberta em julho de 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Caso seja aprovada, a medida substituirá a tarifa temporária de 10% em vigor até o fim de julho e ampliará a pressão comercial sobre o Brasil.
O documento do USTR aponta uma série de críticas ao país, incluindo questões ligadas a plataformas digitais, ao sistema Pix, à aplicação de legislações anticorrupção e antipirataria, a acordos tarifários e ao desmatamento. O acesso ao mercado de etanol também aparece entre os temas centrais da investigação.
Segundo a análise da StoneX, o governo norte-americano considera “irrazoável” a interrupção, em 2017, da política de reciprocidade tarifária que equilibrava o comércio bilateral de etanol. O argumento é que o etanol de milho dos Estados Unidos passou a enfrentar condições menos favoráveis para entrar no mercado brasileiro, enquanto o etanol de cana brasileiro continuou tendo acesso preferencial ao mercado americano.
O processo ainda está em fase de consulta pública. O cronograma prevê manifestações até 1º de julho, audiência em Washington em 6 de julho e decisão final até 15 de julho. Caso seja confirmada, a tarifa poderá atingir cerca de 22% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, considerando os dados de 2024.
Apesar da relevância do tema, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras de etanol vem diminuindo nos últimos anos. Em 2019, os embarques para aquele mercado atingiram 957 milhões de litros. Em 2025, o volume caiu para 202 milhões de litros, retração de 18% em relação ao ano anterior.
A participação americana no total exportado pelo Brasil também encolheu. Enquanto em 2017 e 2019 os Estados Unidos absorviam aproximadamente 69% e 62% das exportações brasileiras de etanol, respectivamente, esse índice recuou para cerca de 16% a partir de 2023.
A análise aponta que esse movimento está relacionado ao crescimento da produção norte-americana de etanol, que aumentou cerca de 4 bilhões de litros entre 2016 e 2025. Com isso, os Estados Unidos passaram a atender integralmente sua demanda doméstica e ampliar sua presença como exportador.
Nesse contexto, a aprovação pela Câmara dos Deputados dos Estados Unidos do projeto H.R. 1346, que prevê a comercialização de gasolina com 15% de etanol durante todo o ano, pode provocar mudanças estruturais no mercado. Atualmente, a venda do E15 enfrenta restrições sazonais relacionadas a normas ambientais.
Segundo a StoneX, a ampliação da mistura pode aumentar significativamente a absorção doméstica de etanol nos Estados Unidos. As estimativas indicam que, até 2027, o potencial exportável norte-americano poderá cair 76,7%, reduzindo a oferta disponível para mercados importadores.
Para o Brasil, esse cenário pode representar uma oportunidade de ampliar a participação em mercados como União Europeia e Índia. No entanto, a possível imposição da tarifa de 25% cria um elemento de incerteza justamente em um momento de expansão da produção nacional.
Do lado brasileiro, a safra 2026/27 é projetada como uma das maiores da história. Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) mostram que, até o fim de abril, a moagem acumulada alcançou 60,5 milhões de toneladas. A produção de etanol somou 3,29 milhões de metros cúbicos, avanço de 71,8% em relação ao mesmo período da safra anterior.
Para todo o ciclo, a produção de etanol de cana é estimada em 26,9 milhões de metros cúbicos, alta de 9,6%, enquanto o etanol de milho deve alcançar 11,1 milhões de metros cúbicos, crescimento de 12,6%.
A combinação de oferta elevada e preços domésticos em queda reforça a importância das exportações para o setor. Nesse contexto, a StoneX destaca que a disputa comercial com os Estados Unidos ocorre justamente quando o mercado global pode oferecer novas oportunidades para o produto brasileiro.
Na avaliação da consultoria, o curto prazo será marcado pelo acompanhamento das negociações tarifárias e pela evolução do projeto E15 no Senado norte-americano. Além disso, o comportamento do câmbio seguirá sendo um dos principais fatores de competitividade para as exportações brasileiras de etanol nos próximos meses.
Agrolink – Seane Lennon
Publicado em 11/06/2026 às 16:50h.
