Durante anos, o setor avançou com base na descoberta de moléculas
A indústria de proteção de cultivos passa por uma mudança estrutural que coloca em xeque o modelo que sustentou seu crescimento por décadas. Segundo Christian Pereira, estrategista de agronegócio, a questão central não é mais se a transformação vai ocorrer, mas quem terá capacidade de conduzi-la.
Durante anos, o setor avançou com base na descoberta de moléculas proprietárias, registro de patentes e monetização do período de exclusividade. Esse modelo consolidou a força de grandes companhias globais, mas passou a enfrentar limites crescentes. Dados citados por Pereira indicam que o custo médio para levar um novo ingrediente ativo do laboratório ao campo quase dobrou em termos nominais entre 1995 e o período de 2014 a 2019, enquanto o prazo médio até o lançamento comercial chegou a 12,3 anos.
O resultado é um ambiente com mais custo, mais tempo e menos moléculas chegando ao mercado. Ao mesmo tempo, parte relevante dos produtos que sustentaram o faturamento das maiores empresas perdeu ou está perto de perder proteção de patente. Entre 2009 e 2023, 105 ingredientes ativos tiveram a exclusividade encerrada, e o ciclo de 2026 a 2028 concentra moléculas de alto valor em um mercado global estimado em cerca de US$ 85 bilhões.
Para os agricultores, esse movimento tende a ampliar opções, melhorar preços e aumentar a margem de manobra no manejo. Para as multinacionais, representa uma reinicialização estratégica forçada. Pereira compara o momento ao vivido pela indústria farmacêutica, que precisou rever a verticalização total e passou a atuar mais como plataforma de escala.
A China também ocupa papel central nesse processo, após avançar na produção de ingredientes ativos genéricos com cadeias integradas e baixo custo. O desafio agora é lidar com excesso de capacidade e margens pressionadas, o que leva parte da indústria chinesa a buscar registros próprios, formulações diferenciadas e maior proximidade com o agricultor.
Para os próximos anos, a reinvenção do setor deve combinar química, inteligência artificial, biológicos e inovação aberta. O caminho não aponta para o fim da química, mas para sua integração com novas tecnologias e modelos de parceria mais flexíveis.
Agrolink – Leonardo Gottems
Publicado em 15/06/2026 às 10:25h.
