Chris Oliveira/ Gazeta Digital
Há 24 anos na dança, Vlademir Oliveira ajudou a transformar a paixão pelo ritmo cuiabano em apresentações, aulas gratuitas e ações para preservar uma das manifestações culturais mais marcantes de Mato Grosso.
Antes de ser espetáculo, aula ou patrimônio cultural, o Lambadão é, para o professor Vlademir, parte da própria vida. Ele encontrou na dança uma forma de expressão que, com o passar do tempo, se transformou também em missão: preservar, “ensinar e levar a cultura mato-grossense para cada vez mais pessoas”.
A história começou quando ainda era jovem. Aos 18 anos, Vlademir Oliveira começou a dançar Lambadão e passou a participar dos grupos de competição que movimentavam Cuiabá e Várzea Grande. Naquela época, as disputas aconteciam em casas de shows e reuniam diferentes grupos de dança.
Com o fim das competições, porém, muitos dançarinos deixaram os palcos e os grupos foram desaparecendo. Anos depois, em 10 de março de 2015, Vlademir decidiu reunir novamente antigos amigos da dança. Nascia o grupo Lambadeiros de Elite.
No início, a proposta era simples: voltar a dançar e manter viva a convivência entre aqueles que compartilhavam a mesma paixão, mas a história tomou outro rumo depois de uma experiência vivida por Vlademir no Rio de Janeiro.
Em agosto daquele ano, ele participou de um programa de televisão e conversou com o cantor Xande Pilares, que perguntou se o grupo fazia shows. A resposta era não. A partir daquela conversa, veio a provocação para transformar a dança em espetáculo.
A ideia dividiu opiniões. Alguns integrantes queriam apenas continuar praticando a dança como atividade física, enquanto outros abraçaram a possibilidade de montar coreografias e apresentações.
Vlaudemir escolheu seguir em frente, em 2016, o grupo apresentou seu primeiro espetáculo no aniversário de Rosário Oeste.
O que começou como um reencontro de amigos passou a ganhar novos formatos, com apresentações, cursos e workshops em diferentes cidades de Mato Grosso. “O Lambadão, para mim, é a minha vida”, resume o professor.
Da competição ao patrimônio cultural
Para Vlademir, preservar o Lambadão também significa reconhecer sua importância para a história de Mato Grosso.
Ele conta que, depois do período das competições, começou a conversar com pessoas que também ajudaram a construir a história da dança. Entre elas estava o mestre Jaime, que o incentivou a transformar aquilo que antes era feito para competir em apresentações artísticas.
Em 2018, por meio da articulação de Vlademir com o mestre Jaime Queiroz de Matos, foi conquistada uma lei municipal que reconheceu o Lambadão como patrimônio cultural imaterial de Cuiabá e estabeleceu uma data dedicada à manifestação.
No ano seguinte, veio outro reconhecimento: o Lambadão passou a ser definido também como movimento cultural de Mato Grosso.
Após a morte do mestre Jaime, em 2021, Vlaudemir continuou a luta pela valorização da dança. Em 2024, junto de Klebinho, participou da articulação que levou à aprovação da lei estadual que estabeleceu o Dia do Lambadão em 10 de setembro.
A escolha da data não foi por acaso. O dia corresponde ao aniversário de Chico Gil, considerado por muitos como o “Rei do Lambadão” e um dos principais símbolos do ritmo mato-grossense.
Uma dança que ocupa novos espaços
Se antes o Lambadão estava principalmente ligado às festas de santo e a algumas casas de shows, hoje o professor percebe uma presença muito maior do ritmo.
O Lambadão passou a dividir espaço com gêneros como sertanejo e pagode e chegou a diferentes cidades do estado.
Segundo Vlademir, ele próprio vem mapeando cerca de 50 municípios onde bandas de Lambadão já são contratadas para apresentações. “O Lambadão não perdeu espaço. Ele ganhou muito mais espaço”, afirma Vlademir Oliveira.
Mas, ao mesmo tempo em que a manifestação se fortaleceu culturalmente, os eventos enfrentam dificuldades para serem realizados. Vlademir aponta o aumento da burocracia e dos custos para organização das festas, especialmente depois das mudanças relacionadas à fiscalização e à legislação de silêncio, segundo ele, eventos que antes tinham um processo mais simples para conseguir autorização hoje exigem mais documentação e investimento.
Para o professor, o impacto vai muito além dos músicos. Um evento movimenta vendedores de comida, profissionais de beleza, postos de combustível, lojas, mercados e diversos outros trabalhadores. Na visão de Vlademir, o Lambadão também faz parte da chamada economia criativa e pode gerar renda para uma cadeia inteira de profissionais.
Aulas gratuitas para quem quiser dançar
Foi também com o objetivo de democratizar o acesso à dança que Vlademir decidiu, ainda em 2007, parar de cobrar pelas aulas.
Na época, ele havia sido convidado pelo mestre Jaime de Matos para dar aulas no antigo Retirão, no CPA. Inicialmente, cobrava R$ 20 por pessoa como uma ajuda de custo, com o tempo, percebeu que a cobrança afastava pessoas que queriam aprender, mas não tinham condições financeiras.
A decisão foi tornar as aulas gratuitas. Desde então, a proposta permanece, com o Lambadeiros de Elite, Vlademir continuou oferecendo aulas abertas à comunidade.
Não há limite máximo de idade. Crianças, adultos e idosos podem participar. Ele recomenda, de maneira geral, que crianças tenham mais de 10 anos para compreender melhor os fundamentos, mas conta que já recebeu pequenos dançarinos e também pessoas com mais de 70 anos.
Atualmente, as aulas acontecem na Praça Alencastro, em frente à Prefeitura de Cuiabá. Como o período de chuvas se aproxima, o grupo procura um espaço coberto para dar continuidade às atividades.
Muito além dos passos
Quem chega pela primeira vez pode até pensar que vai apenas aprender uma sequência de movimentos, entretanto, a dança oferece muito mais.
Ele acredita que o Lambadão pode funcionar como atividade física, forma de convivência e espaço de acolhimento.
A experiência também faz parte de sua própria história. O professor conta que enfrentou um período de dependência química e atribui à dança um papel importante em sua transformação de vida.
Por isso, suas aulas não se limitam aos passos, alunos também o procuram para conversar, pedir conselhos e compartilhar momentos difíceis. Um dos relatos que mais o marcou veio de uma pessoa que chegou às aulas enfrentando um sofrimento intenso e relatou que pensava em tirar a própria vida.
Depois das conversas e da participação nas atividades, segundo Vlademir Oliveira, a pessoa desistiu da ideia e continuou frequentando o grupo.
Para ele, histórias como essa mostram que o Lambadão pode alcançar lugares que vão muito além da pista de dança. “Ali a gente não pratica só a dança. A gente pratica também a nossa caridade”, afirma Vlademir Oliveira.
Preservar para não deixar a história desaparecer
A preocupação com a memória também levou Vlademir a pensar em novos projetos. Ele já produziu videoaulas para registrar sua metodologia de ensino e pretende transformar parte desse conhecimento em livro. A ideia é reunir diferentes olhares sobre o Lambadão: a história, a música e a dança.
Para isso, pretende contar com profissionais de diferentes áreas, como o historiador Guapo e o músico Levi.
A intenção é levar a história do ritmo também para a literatura e registrar conhecimentos que, muitas vezes, são transmitidos principalmente de forma oral.
Além disso, o professor defende a ocupação dos espaços públicos. Para ele, levar o Lambadão para uma praça significa colocar a cultura à disposição de toda a comunidade.
Depois de mais de duas décadas dançando, ensinando e trabalhando pela valorização do Lambadão, Vlademir tem uma mensagem simples para quem ainda sente vergonha ou acredita que não leva jeito para dançar. “Permita-se.”
Ele explica que não é necessário ser profissional. A dança, segundo ele, não exige experiência, idade ou habilidade específica. Basta ter vontade de participar.
Para quem nunca teve contato com o ritmo, a primeira experiência costuma ser marcada pela surpresa. Aos poucos, a vergonha dá lugar aos passos, os passos dão lugar ao sorriso e a música cria uma sensação de pertencimento.
É justamente essa transformação que Vlademir Oliveira deseja manter viva. Porque, para ele, o Lambadão não é apenas uma dança que atravessa gerações. É memória, identidade, trabalho, amizade e encontro. E, quando a batida começa, o convite continua sendo o mesmo: permitir-se dançar.
