Créditos GUSTAVO OLIVEIRA/ jornal Diário de Cuiabá-MT
Da Reportagem
Agência aumenta para 81% a chance de episódio muito forte. Produtores temem atraso no plantio e perda de produtividade da soja
O agronegócio de Mato Grosso entrou em estado de atenção diante da possibilidade de um Super El Niño atingir seu pico entre outubro e dezembro deste ano.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou de 63% para 81% a probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte, reforçando o risco de um período marcado por temperaturas acima da média, chuvas irregulares, estiagem prolongada e maior incidência de incêndios florestais justamente durante a implantação da safra 2026/27.
Maior produtor brasileiro de soja, milho e algodão, Mato Grosso está entre os estados que poderão sentir os maiores impactos do fenômeno.
A principal preocupação é que a irregularidade das chuvas atrase o plantio da soja, reduzindo a janela ideal para o milho de segunda safra, base da produção estadual.
Na semana passada, em entrevista exclusiva ao DIÁRIO, o ex-ministro da Agricultura e ex-governador Blairo Maggi resumiu a preocupação do setor, mas ponderou que a experiência acumulada pelo produtor rural ajuda a enfrentar eventos climáticos adversos.
“O clima sempre é uma preocupação. Incontrolável e com pouca margem de manobra para evitar. O El Niño talvez atrapalhe fazer duas safras, mas uma sempre vai fazer”, disse.
A avaliação é compartilhada pelo superintendente do Sistema Famato, Cleiton Gauer, que considera a janela de plantio o primeiro grande desafio caso a previsão da NOAA se confirme.
“O primeiro impacto tende a ocorrer sobre a janela de plantio por causa da irregularidade das chuvas. Mas, se o fenômeno se intensificar e provocar veranicos durante o desenvolvimento da soja, a produtividade também poderá ser afetada. Um problema acaba desencadeando o outro: o atraso da semeadura compromete a segunda safra e o déficit hídrico reduz o potencial produtivo da soja”, afirmou ao DIÁRIO.
Segundo Gauer, o comportamento das chuvas entre setembro e outubro será decisivo para o desempenho da próxima safra, já que o Estado depende da regularidade das precipitações para iniciar o plantio da soja dentro da janela considerada ideal.
Especialistas afirmam que o maior risco não está apenas em uma eventual quebra de produtividade, mas no efeito em cadeia provocado pelo atraso das chuvas.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) alerta que qualquer atraso no início da estação chuvosa compromete toda a programação agrícola.
“Qualquer atraso nas chuvas pode comprometer a janela de plantio. Há muita preocupação com esse efeito dominó”, afirma a assessora técnica da entidade, Danyella Bonfim.
O consultor Gabriel Viana, da Safras & Mercado, observa que os modelos meteorológicos mais recentes aumentaram a preocupação entre produtores do Centro-Oeste.
“Não podemos decretar quebra de safra antes da hora, mas tudo está se encaminhando para problemas com o El Niño. Os mapas climáticos estão preocupantes”, afirma.
Para o pesquisador Felippe Serigati, da FGV Agro, os efeitos não serão uniformes em todo o país.
“A produção agropecuária brasileira está espalhada em diversas porções do território. Cada região deve sentir o fenômeno de uma forma diferente”, explica.
Os reflexos poderão atingir também a pecuária.
Com menor disponibilidade de chuvas, as pastagens tendem a perder qualidade, aumentando a necessidade de suplementação alimentar do rebanho.
Ao mesmo tempo, eventuais perdas nas lavouras de soja e milho podem elevar o custo da ração utilizada na bovinocultura, suinocultura e avicultura.
Segundo o Itaú BBA, essa combinação pode provocar aumento dos custos de produção e, posteriormente, chegar ao consumidor por meio do encarecimento das proteínas animais.
Os impactos extrapolam o campo.
Com menos chuvas sobre parte do Centro-Oeste, cresce a preocupação com a redução dos níveis dos reservatórios das hidrelétricas, aumentando a necessidade de acionamento das usinas termelétricas e pressionando as tarifas de energia elétrica.
Outro efeito esperado é o aumento do risco de incêndios florestais.
Nesta semana, o Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo determinou que todos os estados apresentem, em até 30 dias, planos específicos de prevenção aos incêndios.
Em Mato Grosso, onde Pantanal e Cerrado registraram queimadas históricas durante episódios anteriores de El Niño, órgãos ambientais e produtores rurais intensificaram o monitoramento das previsões meteorológicas.
Apesar da elevação da probabilidade de um episódio muito forte, especialistas evitam falar em perdas inevitáveis.
O pesquisador Leandro Gilio, do Insper Agro Global, ressalta que ainda é impossível dimensionar os impactos.
“A gente sabe que vai ter um El Niño, mas ainda não tem a dimensão das possíveis perdas caso os eventos sejam extremos.”
O agrometeorologista Marco Antonio dos Santos, da consultoria Rural Clima, também recomenda prudência.
Segundo ele, ainda existe possibilidade de chuvas suficientes para garantir o plantio da soja em setembro e outubro, embora novembro e dezembro possam registrar deficiência hídrica em parte do Cerrado brasileiro.
Até mesmo o presidente interino da Aprosoja Brasil e presidente da Aprosoja Mato Grosso, Lucas Costa Beber, considera precoce qualquer previsão catastrófica.
“O produtor tem que fazer a parte que lhe cabe, adotando boas práticas independentemente do clima. O atraso da janela preocupa, mas ainda é cedo para conclusões definitivas.”
ESTOQUES MUNDIAIS AMENIZAM PRESSÃO – No mercado internacional, uma notícia reduz parte das preocupações.
Após sucessivas safras recordes, os estoques globais de grãos permanecem elevados, fator que tende a reduzir oscilações bruscas de preços caso ocorram perdas localizadas de produção.
Mesmo assim, para Mato Grosso, a principal preocupação permanece dentro da porteira.
Se as previsões da NOAA se confirmarem, a safra de soja poderá começar mais tarde, reduzir a janela do milho segunda safra e comprometer a rentabilidade justamente do estado que lidera a produção nacional de grãos.
Como resumiu Blairo Maggi, uma safra provavelmente será colhida.
O grande desafio será preservar a produtividade e garantir que Mato Grosso consiga repetir a tradicional dobradinha entre soja e milho que sustenta boa parte da economia estadual.
