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Emagrecedores esvaziam estoques e desafiam mercado da moda em Cuiabá

Laisa Stofel/Gazeta Digital


Reprodução

O guarda-roupa de quem vive em Cuiabá está mudando de tamanho, e o reflexo dessa transformação não começa nas confecções de moda, mas nos balcões das farmácias com a popularização de medicamentos de controle de apetite e perda de peso, como Ozempic e Mounjaro. O fenômeno gerou um efeito dominó, começando na balança da população e terminando diretamente nas araras do comércio local de vestuário.

Dados de abril da NielsenIQ apontam que o Centro-Oeste assumiu o topo do ranking nacional na penetração dessas substâncias: 8,2% dos lares da região já utilizam as chamadas “canetas emagrecedoras”. Em Cuiabá, o impacto nas prateleiras é duplo e contraditório, criando um cenário em que os tamanhos menores desaparecem rápido, enquanto as numerações maiores enfrentam novos desafios.

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Na ponta final está o consumidor cuiabano, que já sente a mudança na hora de ir às compras. Esse é o caso das estudantes Yasmin Nadime e Agda Helena, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que vivenciam os dois extremos desse novo mercado. Para quem veste numerações baixas, a percepção é de que a concorrência nas araras aumentou substancialmente, como destacado pela estudante Yasmin Nadime, que usa tamanho P.

“Toda vez que eu me interesso por uma peça recentemente, eu percebo que tenho encontrado bem menos no meu tamanho. Isso me gera uma sensação de escassez, porque, se esse número está aumentando, então o certo talvez seja trazer mais dele para as mulheres, mas também não diminuir a peça dos tamanhos G e GG que já existem”, afirmou ao GD.

Essa velocidade na mudança do perfil das clientes é sentida de forma imediata no comércio de proximidade. Herika Nayllon, proprietária da Bebel Store, loja especializada em plus size de Cuiabá, relata que o atendimento próximo do cliente permitiu flagrar a transição em tempo real.

“Como nós somos uma loja menor, conseguimos perceber isso mais rápido, nós conseguimos ajustar essa rota mais rápido e mudar o que é necessário mais rápido. Essas grandes redes têm coleções com um tempo um pouquinho mais longo de mudar, de diminuir essa grade. Sendo menor, nós conseguimos ajustar um pouco mais a rota e entender mais esse cliente rapidamente”, explica a empresária à equipe do GD, apontando a agilidade como trunfo diante das gigantes do fast fashion.

O outro lado dessa moeda se traduz em exclusão para quem continua precisando de modelagens maiores. A estudante Agda Helena enfrenta essa realidade na pele.

“Desde sempre eu tenho dificuldade em encontrar roupas que fiquem legais em mim e que caibam no meu tamanho, porque desde sempre eu sou uma pessoa gorda. Mas acontece que, nos últimos anos, eu tenho notado uma dificuldade maior nisso”, desabafou.

Recentemente, a busca de Agda por peças básicas no varejo tradicional da cidade se agravou.

“Eu fui à Moda Verão e não encontrei nenhuma roupa legal do meu tamanho, nenhuma calça jeans especificamente. Eu rodei a loja toda e não tinha um tamanho adequado para mim, sendo que até alguns anos atrás ainda tinha dificuldade, mas eu pelo menos achava uma coisa ou outra. Agora nem isso”, conta.

Como alternativa, ela migrou para o ambiente digital, embora com ressalvas financeiras importantes: “As lojas físicas estão muito mais difíceis agora. Quando eu finalmente encontro, sempre tem um preço muito salgado”, pontua.

A queixa da consumidora reflete a postura cautelosa adotada pelo grande varejo de massa da capital. Junior Vidotti, diretor da Moda Verão, explica que a empresa percebeu a grade G e GG ter uma venda cada vez mais expressiva e adaptou o estoque nos últimos anos. Contudo, ele enxerga o impacto das canetas emagrecedoras com cautela.

“A tendência é que isso diminua, acaba tendo um efeito mais de longo prazo, porque é um percentual pequeno das pessoas que usam em relação ao total do mercado global de consumo. O cliente não vem procurando (tamanhos menores por esse motivo). É claro que a gente tem sim pessoas que emagreceram, mas, no global, ele ainda não tem um impacto tão significativo assim”, analisa o empresário, lembrando ainda o risco do efeito sanfona. “Muitos usuários dessas canetas acabam voltando a engordar porque, se não mudarem de estilo de vida, acabam retornando ao peso anterior”, concluiu.

Essa assimetria é o retrato de um comércio local pressionado e que precisa se equilibrar em meio a um orçamento apertado. O levantamento nacional da NielsenIQ também aponta que 84% das famílias que já utilizam os medicamentos GLP-1 relatam impacto nas finanças, com a maioria desembolsando mais de R$ 800 mensais com o tratamento, reduzindo gastos com lazer e saídas, mas se vendo obrigadas a gastar com vestuário quando mudam drasticamente de manequim.

Essa transição ocorre num momento em que dados da plataforma IEMI – Inteligência de Mercado indicam que o segmento plus size mantém uma fatia estável de 3,4% do total da produção nacional de vestuário. Após registrar uma recuperação pós-pandemia com salto de 12,7% no volume de peças produzidas, o setor consolida sua estabilização no mercado brasileiro.

As projeções gerais para o varejo de moda indicam um faturamento crescente, estimado em R$ 314,9 bilhões, impulsionado pela expansão de marcas tradicionais em direção a grades de tamanhos maiores, o que desenha um cenário de forte potencial de consumo reprimido para as marcas que conseguirem decifrar o novo ritmo das vitrines cuiabanas.

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