História de Marília Almeida/O Estadão
O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia (BHIA3) coloca sob pressão um conjunto de títulos de dívida que soma R$ 4,8 bilhões, segundo levantamento da plataforma Vitrify, com data-base de 17 de agosto. O valor considera oito tipos de investimento em que a companhia aparece como contraparte. Em seis deles, a rede de varejo é devedora direta.
O levantamento mostra que 89,7% do saldo está concentrado nas três séries da 10ª emissão e nas três séries da 11ª emissão de debêntures.
A companhia ajuizou o pedido de recuperação judicial em 16 de agosto, em conjunto com nove subsidiárias. Segundo o fato relevante, a empresa atribuiu a deterioração econômico-financeira à combinação de juros elevados, restrição de crédito, aumento do custo financeiro, pressão sobre o consumo e capital de giro e à não concretização de alternativas de liquidez.
Fundos têm participação relevante na dívida
Os títulos estão espalhados entre investidores institucionais. Considerando as 10ª e 11ª emissões, os fundos de investimento respondiam por 40,37% no momento de emissão da dívida, enquanto os coordenadores das ofertas ficaram inicialmente com 46,72%.
Pessoas jurídicas representaram 6,88%, instituições financeiras, 4,54%, e pessoas físicas, 1,49%. O dado, porém, retrata a distribuição no encerramento das ofertas e não necessariamente quem mantém os papéis atualmente, já que os títulos podem ter mudado de mãos no mercado secundário.
O relatório traz uma seção específica com as gestoras que declararam posições em ativos ligados às Casas Bahia, a partir das carteiras trimestrais informadas à CVM e consolidadas pela Vitrify
É importante fazer uma ressalva: isso não significa necessariamente que essas gestoras ainda tenham os títulos hoje, porque a carteira pode ter sido vendida depois da data de referência. O relatório separa posições atualizadas em até 90 dias das desatualizadas.
Na 11ª emissão, aparecem 18 registros de gestoras. As maiores posições informadas são do Santander (4,31%), BB (2,35%) e Valora (0,98%). Também aparecem gestoras como Norte Asset, IRB Asset, Vinci, BTG Pactual Asset, XP Vista e Mongeral Aegon.
Na 10ª emissão, o levantamento encontrou 16 registros de posições informadas. Os maiores percentuais são de Somma Investimentos (0,25%), Mongeral Aegon Investimentos (0,20%) e Franklin Templeton Brasil (0,17%).
O relatório também identificou seis registros de gestoras no CRI 20K0571487, que não é uma emissão direta da Casas Bahia. As maiores posições informadas são de Fator Administração de Recursos (11,90%), Kinea Investimentos (11,64%) e XP Vista Asset Management (9,96%).
Debêntures são negociadas com desconto de até 78%
Um dos sinais de deterioração da percepção de risco da varejista aparece no mercado secundário de títulos de dívida. Em 2026, foram registrados apenas 31 negócios, que movimentaram R$ 361,1 milhões em quatro papéis, com preços que variaram entre 21,74% e 100,07% do valor de face dos títulos.
A mediana ponderada pelo volume foi de 37,02% do valor de face. Ou seja, considerando o conjunto de negócios analisado, metade do volume negociado ocorreu com desconto de mais de mais de 62,98%.
O principal papel negociado foi o BHIAB1, que concentrou R$ 306,8 milhões, ou 85% do volume do recorte. Os negócios registrados no ano ocorreram entre 25,05% e 44,29% do valor de face dos títulos. Foram 17 operações, que movimentaram R$ 306,8 milhões. Já o BHIAA1 teve negócios em uma faixa mais ampla, entre 29,99% e 100,07% do valor de face.
Maior parte da dívida foi empurrada para 2050
O saldo está concentrado em vencimentos longos. Duas séries da 10ª emissão (BHIAA0 e BHIAC0) somam R$ 3,64 bilhões, equivalentes a 75,8% do saldo dos oito instrumentos analisados. Os vencimentos foram alongados para novembro de 2050, com remuneração e amortização previstas em parcela única na data final.
O BHIAA0 possui saldo de R$ 2,05 bilhões e remuneração equivalente a cerca de 110% do CDI. Já o BHIAC0 tem saldo de R$ 1,59 bilhão e remuneração de aproximadamente 107% do CDI. Ambos vencem em 28 de novembro de 2050.
Os demais papéis possuem vencimentos mais próximos. O BHIAB1, por exemplo, tem saldo de R$ 447,3 milhões e vence em junho de 2028. O BHIAA1 tem saldo de R$ 221,5 milhões e vence em dezembro de 2029. Há ainda um Certificado de Recebíveis Imobiliário (CRI), com saldo de R$ 224,6 milhões, cujo vencimento é em 2030.
O papel com vencimento mais próximo é o TRSE16, em março de 2027, com saldo de R$ 268 milhões. Nesse instrumento, a Casas Bahia aparece como cedente dos recebíveis, e não como devedora. O pagador dos recebíveis securitizados é o Itaú.
