Itaú BBA aponta risco de queda nas cotações com aumento da oferta interna
O foco da doença de Newcastle confirmado em Santa Catarina pode provocar impactos sobre as exportações de carne de frango do estado e aumentar a pressão sobre os preços no mercado interno no primeiro trimestre de 2027. A avaliação é da Consultoria Agro do Itaú BBA, que aponta a duração das restrições comerciais impostas por países importadores como o principal fator de risco para a avicultura catarinense. Apesar disso, os efeitos sobre o desempenho nacional das exportações tendem a ser limitados.
Segundo análise divulgada, Santa Catarina apresenta maior vulnerabilidade aos embargos devido à elevada participação das vendas externas na produção estadual. Cerca de 63% da carne de frango produzida no estado é destinada ao exterior, proporção superior à média brasileira, de 37%.
Em 2025, os frigoríficos catarinenses exportaram 1,2 milhão de toneladas de carne de frango, o equivalente a 22,5% do volume nacional. A receita somou US$ 2,45 bilhões, representando 25% do faturamento brasileiro com as exportações do produto. O estado também ocupa a segunda posição na produção nacional, com 1,9 milhão de toneladas produzidas no ano passado.
A preocupação está concentrada na suspensão das compras de produtos catarinenses pela China e pela Arábia Saudita. Os dois mercados estão entre os principais destinos da carne de frango brasileira e adotaram restrições após a confirmação da doença em uma granja comercial de perus de corte em Nova Itaberaba, no Oeste de Santa Catarina.
A China, responsável por aproximadamente 10% das exportações brasileiras de frango entre janeiro e setembro de 2026, restringiu as compras de Santa Catarina, afetando 14 das 61 plantas brasileiras habilitadas a exportar para o país. A Arábia Saudita, terceiro maior comprador do produto nacional, também suspendeu as importações catarinenses. O país adquiriu 327,8 mil toneladas nos primeiros nove meses do ano, cerca de 8% dos embarques brasileiros.
O Chile adotou restrições direcionadas a Santa Catarina, enquanto México e Malásia determinaram a suspensão das importações de todo o Brasil. O mercado mexicano respondeu por aproximadamente 4% das exportações brasileiras de carne de frango entre janeiro e setembro, com 171 mil toneladas embarcadas.
De acordo com o Itaú BBA, a decisão chinesa de limitar o embargo ao estado representa uma mudança importante em relação às crises sanitárias anteriores. Em 2024, após a identificação de Newcastle em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, a China suspendeu inicialmente as compras de todo o Brasil e levou 26 dias para restringir a medida ao território gaúcho.
Em 2025, a confirmação de gripe aviária em uma granja comercial de Montenegro, também no Rio Grande do Sul, provocou a suspensão das compras brasileiras por aproximadamente 17 mercados. Embora o país tenha recuperado a condição sanitária de livre da doença em junho daquele ano, a China retirou o embargo nacional somente em novembro. A restrição específica ao Rio Grande do Sul permaneceu até 20 de janeiro de 2026.
O histórico reforça a preocupação com o prazo necessário para a retomada das exportações catarinenses. Conforme o levantamento, a recuperação da condição sanitária não garante a reabertura imediata dos mercados. No caso da doença de Newcastle, o pedido de reconhecimento do status sanitário junto à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) poderá ocorrer 90 dias após o saneamento do foco, desde que não sejam registrados novos casos.
O episódio atual foi confirmado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em 18 de outubro, com anúncio público no dia seguinte. A propriedade afetada possuía 6.526 perus de corte, dos quais 26 foram identificados como casos da doença, sem registro de mortalidade.
As amostras foram coletadas em 21 de setembro, durante atividades de vigilância sanitária ativa, em aves que não apresentavam sintomas. A triagem apresentou resultado positivo em 14 de outubro, e a confirmação ocorreu quatro dias depois.
Após a identificação do foco, a propriedade foi interditada e a movimentação de aves suspensa. O Mapa também declarou emergência zoossanitária por 60 dias nos municípios de Nova Itaberaba, Nova Erechim, Coronel Freitas e Águas Frias. A área sob vigilância reúne 133 granjas comerciais em um raio aproximado de 10 quilômetros.
Além das restrições às exportações, o Itaú BBA identifica possíveis consequências para a operação dos frigoríficos e cooperativas catarinenses. Cargas produzidas após 21 de setembro, data utilizada como referência para a certificação sanitária, não podem ser certificadas para determinados destinos, o que pode elevar a necessidade de armazenagem em câmaras frias e aumentar os custos logísticos.
A dificuldade de acesso aos mercados também pode exigir o redirecionamento das vendas para compradores que remuneram menos ou para o mercado doméstico. Nesse cenário, a consultoria aponta riscos de acúmulo de estoques, descontos nos preços, renegociação de contratos e pressão sobre o fluxo de caixa das empresas.
Os possíveis efeitos se estendem aos produtores integrados localizados nas áreas de restrição, que podem enfrentar alterações no alojamento de aves e na remuneração. Mudanças no ritmo de abate também podem afetar a demanda regional por milho e farelo de soja.
Empresas com unidades industriais em outros estados, especialmente Paraná e Rio Grande do Sul, apresentam maior capacidade de reorganizar os embarques. Já as processadoras com operações concentradas em Santa Catarina estão mais expostas aos impactos das suspensões comerciais.
No mercado interno, a preocupação é ampliada pelo crescimento da produção brasileira de carne de frango. Estimativas do Itaú BBA, com dados preliminares do terceiro trimestre, indicam aumento de 6,2% na produção entre janeiro e setembro de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. Para o fechamento do ano, a projeção é de expansão próxima de 6%.
Mesmo com as restrições comerciais, a consultoria estima que as exportações brasileiras devem registrar novo recorde em 2026, com crescimento próximo de 10% em relação ao ano anterior. A perspectiva considera a recuperação dos embarques após os impactos da gripe aviária registrados em 2025.
Entretanto, a necessidade de direcionar parte da produção catarinense ao mercado doméstico pode ampliar a oferta e pressionar os preços do frango, principalmente no atacado da região Sul. O risco tende a ser maior no primeiro trimestre de 2027, quando a demanda interna costuma enfraquecer após as festas de fim de ano.
O comportamento dos preços nos episódios anteriores mostra diferenças na intensidade dos impactos. Em 2024, a redução temporária das exportações após o foco de Newcastle no Rio Grande do Sul não provocou queda nos preços da carne de frango. Em 2025, porém, as restrições comerciais mais amplas e prolongadas contribuíram para a perda de sustentação das cotações e redução das margens no mercado interno durante quatro meses.
Agrolink – Aline Merladete
Publicado em 23/10/2026 às 15:46h.
