Reeleição de Lula: análise projeta economia até 2030
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá manter o Brasil em uma trajetória de ajuste fiscal gradual, com juros elevados, pressão sobre o câmbio e crescimento da dívida pública nos próximos quatro anos. A avaliação é de Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, que projeta a dívida bruta em 94,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e o dólar a R$ 6,85 até 2030.
Segundo a análise, a continuidade da política econômica adotada desde 2023, baseada principalmente na ampliação da arrecadação, poderá não ser suficiente para estabilizar o endividamento. A instituição considera que o aumento das despesas públicas e a composição do Congresso Nacional dificultarão a implementação de medidas para melhorar o resultado fiscal.
O levantamento aponta que a dívida bruta passou de 71,7% do PIB no encerramento de 2022 para 82,9% em agosto de 2026. Nas projeções da Oby Capital, o indicador deverá alcançar 86,6% em 2027, 89,9% em 2028 e 92,4% em 2029, chegando a 94,6% em 2030. A instituição avalia que a combinação entre endividamento elevado e dificuldade para ampliar o superávit primário manterá o custo de financiamento da dívida em patamar elevado. Conforme os dados apresentados, os juros da dívida já representam 8,9% do PIB no acumulado de 12 meses, enquanto as despesas obrigatórias correspondem a aproximadamente 92% do Orçamento.
Nesse cenário, a Oby Capital projeta uma redução limitada da taxa básica de juros ao longo do novo mandato. “O dólar saiu de R$5,00 na sexta para mais de R$5,60 na abertura de hoje. O ajuste fiscal mais lento tende a enfraquecer o real e atrasar a convergência da inflação à meta. O Banco Central fica sem mais espaço para continuar com o ciclo de queda dos juros, encarecendo o crédito e restringindo o investimento. Novas altas de juros entram no radar.” . A instituição considera que a ausência de um ajuste mais consistente das contas públicas poderá manter os juros reais elevados e limitar a capacidade de recuperação dos investimentos privados.
As projeções para o câmbio também indicam desvalorização do real. Segundo a Oby Capital, o dólar poderá encerrar 2027 em R$ 5,85, avançar para R$ 6,20 em 2028 e atingir R$ 6,50 em 2029. Para o último ano do mandato, a instituição estima uma cotação de R$ 6,85. O levantamento não apresenta projeções específicas para o agronegócio, mas inclui variáveis econômicas relevantes para o acompanhamento das condições de financiamento e do mercado de commodities. A instituição também aponta que preços internacionais elevados dessas matérias-primas, combinados a um dólar mais fraco no mercado global, poderiam favorecer o câmbio brasileiro e a arrecadação.
Em relação à inflação, a Oby Capital estima que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) termine 2026 em 5,05% e alcance 5,40% em 2027. Para 2028, a previsão é de 5,20%, com redução para 5% em 2029 e 2030. A instituição atribui a persistência das pressões inflacionárias ao cenário de desvalorização cambial e à manutenção de um prêmio de risco elevado. Na avaliação apresentada, esses fatores poderão impedir uma redução mais expressiva da inflação e, consequentemente, dos juros.
O crescimento econômico também deverá permanecer moderado, conforme o estudo. A Oby Capital projeta expansão de 1,80% do PIB em 2026, desaceleração para 1,20% em 2027 e crescimento de 1,50% ao ano entre 2028 e 2030.
A análise considera que transferências de renda, valorização do salário mínimo e investimentos associados ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) poderão sustentar parte da atividade econômica. Por outro lado, a instituição avalia que os juros reais elevados e o baixo dinamismo do investimento privado limitarão o crescimento.
No curto prazo, a Oby Capital também projeta uma reação negativa dos mercados financeiros ao resultado eleitoral. Para esta segunda-feira, 26 de outubro, a instituição estima dólar entre R$ 5,50 e R$ 5,70, elevação de 100 a 150 pontos-base nos juros futuros de longo prazo e queda de 6% a 10% no Ibovespa.
Segundo o levantamento, os ativos brasileiros vinham incorporando expectativas de vitória de Flávio Bolsonaro. Após o primeiro turno, o dólar acumulou queda superior a 4%, os juros futuros recuaram mais de 100 pontos-base e o Ibovespa superou 200 mil pontos pela primeira vez, com valorização superior a 7%.
A intensidade de uma eventual correção, conforme a Oby Capital, dependerá das primeiras manifestações do governo sobre a condução da política econômica. A instituição considera que a reafirmação das metas fiscais e a continuidade da equipe econômica poderão limitar as perdas, enquanto novos compromissos de gastos ou críticas ao Banco Central tenderiam a ampliar a reação negativa.
Outro ponto de atenção identificado pela análise é a elaboração do Orçamento de 2027. A Oby Capital estima que o governo terá de acomodar entre R$ 70 bilhões e R$ 90 bilhões em novos gastos e renúncias de receitas anunciados durante a campanha eleitoral.
O projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 prevê meta de superávit primário de 0,5% do PIB, equivalente a R$ 73,2 bilhões para o governo central. Segundo a instituição, a regra permite uma margem de tolerância de 0,25 ponto percentual e exclui aproximadamente R$ 65 bilhões em despesas do cálculo da meta.
Sem essas exclusões, conforme o levantamento, a proposta orçamentária encaminhada em agosto previa superávit efetivo de R$ 18,6 bilhões.
A análise aponta que o governo poderá recorrer à revisão de benefícios tributários, à criação de novas fontes de arrecadação e ao contingenciamento de despesas para cumprir os objetivos fiscais. A instituição ressalta, porém, que parte dessas medidas dependerá de aprovação no Congresso Nacional.
A composição do Legislativo é apontada pela Oby Capital como outro obstáculo para o ajuste. Segundo o estudo, os partidos de esquerda somam aproximadamente 124 deputados, enquanto o Partido Liberal (PL) reúne 121 parlamentares. Na avaliação da instituição, a aprovação de medidas de arrecadação e contenção de gastos exigirá negociações com partidos de centro.
O programa econômico apresentado durante a campanha estabelece a manutenção do arcabouço fiscal e uma trajetória de melhora do resultado primário, passando de déficit de 0,5% do PIB em 2026 para superávit de 1,5% em 2030.
A Oby Capital considera improvável que essa meta seja integralmente alcançada. Mesmo em um cenário favorável, a instituição estima uma melhora anual entre 0,3 e 0,4 ponto percentual do PIB, abaixo dos 0,5 ponto percentual necessários para cumprir a trajetória proposta.
Entre os fatores que poderão influenciar as projeções, o estudo destaca a política de preços dos combustíveis. Segundo a análise, uma eventual retirada de subsídios, acompanhada do alinhamento dos preços da Petrobras ao mercado internacional, poderá acrescentar mais de um ponto percentual à inflação de 2027.
A instituição também apresenta um cenário de risco mais elevado, no qual mudanças nas metas fiscais, dificuldades para aprovar novas receitas ou conflitos em torno da política monetária poderiam levar o dólar a superar R$ 6 já em 2027 e a Selic a retornar a 14%.
Para os próximos meses, a Oby Capital identifica como principais pontos de acompanhamento a definição da equipe econômica, as discussões do Orçamento de 2027 e as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom).
Na avaliação da instituição, a capacidade do governo de conciliar os compromissos assumidos durante a campanha com as metas fiscais será um dos principais fatores para determinar a trajetória dos juros, da inflação e do endividamento brasileiro até 2030.
Por Aline Merladete
26/10/2026 10h52 · Fonte: Agrolink
